quarta-feira, 29 de março de 2017

dizer poeta

dizer poeta
é gozar com o corpo
a alma
e o espírito

dizer poeta
é ser essa rachadura
habitada por todas
as identidades
amar como que mira nuvens
e saliva a chuva

naquele cenário
do nascer do sol
das coisas exauridas
nas garrafas vazias
nos cinzeiros cheios
eu quis ser a mulher
arrebatada de êxtase


terça-feira, 28 de março de 2017

líquida

ah, miserável
que puta hipócrita você molha agora?

mentistes sobre eu ser eternamente a única
de quem tu separava a polpa com suavidade, um figo
abria as coxas ungidas pela umidade
como um biólogo diante de sua lâmina
e via o que nem eu mesma via, meu recôndito

sorria malino, abria-me os lábios
cheirava minhas bordas profundas
provava meu orvalho ocre
tu te lembras?
nunca esquecerás, desgraçado

sua ereta lascívia penetrava minha carne
e criptografava meu reservatório quente
fazia de mim uma mulher em chamas

já não sou a mesma 
mas ainda estou aqui, maldito
ardendo feito lava por você

selvagens

aqui dentro
meio a contragosto
carrego sua  selva
seus silêncios
a sombra sisuda
dos seus olhos

eu diria não
se eles pedissem licença
mas eles não pedem

entrincheirada
fabrico bússolas
penduro bilhetes pela casa
para não me perder de mim

domingo, 26 de março de 2017

um homem

que veja beleza
em pernas dogmáticas
ancas largas
na voz desamparada
no último suspiro
de uma náufraga

que saiba alucinar
bebendo a poesia
de um domingo rosa
que saiba todos os sentidos do rosa

sábado, 25 de março de 2017

enquanto

há esta geografia
lugar
espaço
territórios

e há o amor
declarando guerra
ao que recusa
se mover

sexta-feira, 24 de março de 2017

Mira

[norma de souza lopes]

afora o susto
(seus olhos não sorriem)
eu semeava uma casa
uma vida, uns filhos
contigo

uma pequena distração
e eis me aqui
vítima outra vez
desse acidente
o amor

terça-feira, 21 de março de 2017

Ode a ilusão de controle

Nem sempre foi esta luta furiosa pela vida
Às vezes observava a todos na plataforma do metrô
Cada vez mais cedo executar seus dias
E pensava antes do salto fatal
Que era preciso escrever uma carta aos filhos pequenos
Com recomendações sobre o que fazer enquanto crescessem
Até perceber que apenas uma carta não daria conta de uma vida inteira
Seria necessário talvez uma carta por aniversário para cada um
E ainda assim haveriam as lacunas, recônditos que
nem mesmo uma carta para cada dia de suas vidas alcançaria
Restava embarcar e seguir para o trabalho
As lágrimas implacáveis no reflexo da janela do trem
Nem sempre foi essa luta furiosa pela vida

segunda-feira, 20 de março de 2017

estão todos

estão todos a falar de si
lugar onde só cabe um
(exceto por estes
breves momentos
luminosos de lucidez
em que se vê
e sente, do outro
a dor do desamor
da perda
da traição)

não é difícil emular
um certo olhar de cambaxirra
uma curva nas omoplatas
queixo mergulhado no peito
e de repente o outro nos habita

fora isso estão todos a falar de si





sexta-feira, 10 de março de 2017

quinta-feira, 2 de março de 2017

Lembrar que na quadrilha de alguém
A gente é sempre o primeiro
Por isso aquele beijo
Hoje de manhã