terça-feira, 16 de janeiro de 2018

menos quando chove

uma mulher debruça-se sob
o poema incompleto
bons poetas e escritores
mantem um diário atualizado
eu não, pensa ela

é apenas uma garota ordinária
que  mais uma vez habita
uma casa sem horizontes
será que as pessoas  me ouvem
nos outros apartamentos?
isso seria constrangedor

gatos tem uma rotina
brincadeiras, comida e sono
trinta anos esperando e eles são
do tamanho da sua espera
as vizinhas conversam
como se houvesse calçadas
é quente às vezes
menos quando chove

pendura os primeiros quadros
se impressiona com
o prazer da solidão
longe daquelas ferramentas 
estranhas que os outros
por vezes homens
usam para a observar e trabalhar 
a alma das mulheres
fitas métricas, alfinetes

pensa: sou poeta, não uma borboleta!
e cuida de alisar as asas
sabe que são elas, tão belas
que os alfaiates de alma
esperam capturar
para compor seus 
jardins de vidro

uma mulher escreve
o trigésimo quinto
verso e faz promessas 
que não irá cumprir
o amor é um puto
talvez seja a coisa mais
verdadeira que já escreveu

sábado, 13 de janeiro de 2018

balada do amor enquanto encontro

o pedido veio errado
coado, não expresso
(o queijo era muito)
sabia que santa marta
não apreciava o carpe diem?

olhos densos, me disse
acordado desde a madrugada
da  manchester fluminense
e segurava forte a minha mão
o universo disposto
a atender minhas preces
de que nada desse errado 
na cidade maravilhosa

da estação cantagalo
até a cinelândia
o metrô fazia cerca de 
80 quilômetros por hora
parecia mais rápido que o de BH
melhor escolher o vagão comum
quem escolheria livremente
a solidão de um vagão feminino?

não conseguia acertar o passo
e acho que isso diz 
um pouco sobre mim
denso pode significar
1. grosso
2. que tem muita massa
3. escuro, carregado, pesado
4. que é profundo, complexo


acho tão bonito o sorriso
quando há um arco nos dentes
tão bonito como o telhado
do theatro municipal
aquelas arcadas são de ouro?
ainda estão lá
então acho que não

em 27 de agosto de 2011 
ocorreu um acidente
quando o bonde de santa tereza
descarrilou e se chocou
fortemente com um poste
matando 6 pessoas 
(incluindo o condutor)
e deixando mais de 50 
passageiros feridos
neste mesmo ano 
morreu um francês 
que caiu depois de 
prender a perna nos trilhos
pra que tanta perna meu deus?

num brechó perto da estação 
de bondinhos santa tereza encontrei 
um camafeu raríssimo de bronze
as jovens mulheres 
do período helenístico
usavam camafeus com a figura 
do deus eros como um convite 
sedutor ao amor
acho que na grécia antiga
não existia amor romântico
o amor romântico
como é inventado por hollywood
é o inimigo das mulheres         disse 
pensando que talvez 
o que eu escreva
não sejam poesias de amor
mas sim de encontro

no parque das ruínas, de cima
fica fácil entender porque 
a dizem cidade maravilhosa
preciso voltar umas dez vezes
até conseguir visitar tudo
vibrava ali onde fica o coração
onde os hindus chamam anahata
o chacra responsável 
pelos sentimentos de amor puro
assim como sentimentos 
de gratidão e generosidade
acho que é isso que quero dizer
quando digo encontro

a cruz é uma figura geométrica
formada por duas linhas ou barras 
que se cruzam em um angulo de 90°
dividindo uma das linhas
ou ambas, ao meio
as linhas normalmente 
se apresentam na horizontal e na vertical
é um dos símbolos humanos mais antigos
usada por diversas religiões
e pode significar sacrifício 
sofrimento dor, ou angustia
mas para mim
a cruz repete insistentemente
uma pergunta
será mesmo que os homens
não podem gozar de seus mamilos?
tive de voltar 
mas sinto que há
uma cidade atravessada
dentro de mim

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

saudade - Ana Gual - Tradução Norma de Souza Lopes

O vento não faz ruido
porém tu ouves
quando toca as coisas.


Assim, o poema.

daqui ó http://emmagunst.blogspot.com.br/2018/01/anna-gual-2-poemas-2-1.html

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

todo dia ponho-me de pé

agradeço aos céus pela
face rosa da tarde
pelos frêmitos dos trilhos do metrô
e por essa chuva
que se deixa fotografar

mas daqui sou capaz de ouvir
o som das ruas
seus sustos empalidecem
meu amor pela praça da estação

tenho quarenta e seis anos
e ainda não acredito
em liberdade, só nesta
cadeira que me poupa
a queda e o chão

pouco a pouco apago os ecos
de minhas idealizações
renuncio ao vício de amar

sutil, por trás da minha risada
esconde-se a véspera da dor
e por pouco não me paralisa

não reparem no abismos
debaixo das cicatrizes
em meus joelhos

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

outra vez

o sete é isso quer dizer:
- lavar as mãos para entrar nessas tardes indiferentes e limpas.
- não como a cor dos seus olhos
mas a exata cor dos seus olhos;
- olhar e não me ver;
- querer e não pedir;
- ouvir e não responder;
- susto e vento glacial;
- fugir como o diabo da cruz;

no amor e na vida
ser a prancha  e o afogado
saber que a cera vai derreter
e ainda assim voar
Ainda estou bem assustada com o assalto ao celular outro dia mas acho que  já consigo falar sobre. Não sei se todos sabem mas eu sou apaixonada pelo corredor cultural da Praça da estação e Viadutos Santa Tereza. No dia eu estava passando sobre  o viaduto três horas da tarde e, deslumbrada com a caminhada, decidi fazer um vídeo contando minha alegria (não precisa me chamar de trouxa, eu mesma já fiz isso umas cinquenta vezes).
Dois garotos em situação de rua me abordaram para tomar o celular. No susto travei o celular na mão e era meio patético, eles não pareciam estar muito seguros e arma que portavam simulava um aparelho de descarga elétrica que não dava choque de verdade. Em embate corporal com um deles acabei caindo no chão, sem soltar o celular. Ele estava bem assustado com o buzinaço e com minha reação. Meus óculos escuros (que eu amava) cairam e ele gritou ao outro que o ajudasse. Conseguiram arrancar o aparelho das minhas mãos. Eu vi o óculos e os vi descer correndo as escadas. Tinha que escolher: pegar os óculos ou persegui-los. Fiz a pior escolha. Eu corri atrás deles até o Edifício Central, onde os perdi. Fiquei sem o celular e sem os óculos.
Esse episódio me fez descobri algo perigoso sobre mim: a reação ao assalto.
E nesses tempos novos que estou vivendo tenho a impressão que não é a única coisa que vou nova que vou descobrir sobre mim.

sábado, 23 de dezembro de 2017

dose de desilusão

um lugar é este sapato que calço
ladrilho em que não se pisa duas vezes
lembrança, expectativa
espaço entre o agora e a morte
é esta lança de solidão
atravessada no baixo ventre

um lugar é este travesseiro 
que desejo eternamente vazio
no canto esquerdo do peito



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

semblante

parecem gostar 
de meu jeito contorcionista 
de usar a língua
minha pinta de 
samambaia de varanda
mas pisam toda vez
sem clemência
botas sete-léguas 
em meu coração
levam pouco tempo
levam quase tudo
sem nenhuma ternura
tudo culpa
desse letreiro em neon
dizendo the end
em minha testa

domingo, 10 de dezembro de 2017

colobri-abelha

- Era possível mamã, que nosso coração batesse mais lentamente? 
Ao que a mãe responde:
- Não seria possível pequeno. Precisamos disto, do calor, desta velocidade de voo e de todo néctar que pudermos consumir. Nisso consiste ser um zunzuncito. Mas diga-me filhinho,  porque haveríamos de existir de maneira diferente?
- Mamã, sinto saudades do escuro que era antes de eu nascer.

efeito borboleta


uma mulher atravessa a rua
não como quem perde um ônibus
ou vai separar uma briga
ela não tem uma bússola
mas está certa de que atravessa
em direção ao norte

"dezoito ou vinte anos?"
"qual a diferença de sentimento
entre quem vai viver ou morrer?"
"todos vão morrer,
mas há algo eminente
nos sentimentos de quem
vai morrer amanhã?"
enquanto a mulher atravessa a
rua se lembra de quando encontrou
a vizinha esfaqueada pelo ex-marido
na porta da cozinha
apesar do tom cianótico no rosto
por fragmentos de segundos
acreditou que a outra estivesse viva
era muito viva sua imagem
de pé diante do balcão da padaria
comprando pães e cigarros
no dia anterior
se mudaram para a pequeno barraco
em 9 de dezembro de 1999
a geladeira o fogão e os colchões
chegaram na quarta-feira mesmo
o sofá e as camas demoraram
uma semana para chegar
ela, ele e os filhos pequenos dormiam
e viam TV em colchões no chão
em 99 George Harrison foi
esfaqueado no peito em Londres
em 99 os reféns do Indiana Arlines
jogavam xadrez dentro do avião
ela não sabe ainda
mas atravessar a rua
é só o primeiro passo
de uma longa diáspora
que empreenderá
saiu de casa naquele dia
como quem ia comprar
pães ou cigarros
até perceber que não podia voltar
"eu poderia jogar xadrez em casa
por mais 18 anos" ela pensa
mas algo em sua memória, um pouco
daquele azul áspero e frio na pele da vizinha
move suas pernas para a travessia
subir uma escada ou atravessar uma ponte
são metáforas bem potentes
mas pouca gente lembra que não se pode
morar numa escada ou uma ponte
uma escada ou uma ponte são
aqueles não-lugares nos quais
se tiram fotografias
quando se quer passar a ideia
de saída ou de chegada
a mulher chegou do outro lado da rua
se fotografássemos o exato momento
em que ela pisou
na guia do meio-fio perceberíamos
o modo como seus pés tocaram o chão
ou como suas mãos se apoiaram no poste
a fizeram lembrar da firmeza de outra marcha
empreendida junto à mãe e os três irmãos
quando fugiam do pai em sua infância remota
edward lorenz ou qualquer outro cientista
da teoria da complexidade poderia
chamar aquele sentimento de
sensibilidade às condições iniciais
um bater de borboletas no Brasil
provoca um tsunami no Japão
a teoria do caos oferece respostas
interessantes para aquilo que semestres
inteiros de estatísticas aplicadas às
ciências humanas não são
capazes de responder