sexta-feira, 17 de novembro de 2017

a assustadora palidez das paredes

a boca aberta do cárcere
a sombra faminta
do tilintar das chaves

forte e estável
é a nossa falta
de coragem


sábado, 11 de novembro de 2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

náufraga

uma sede me consome
o mar do seu nome
lanço ao oceano
numa garrafa
dada a ilha
que me cerca

mas o frasco
não se afasta
insiste em oscilar
em minha orla

terça-feira, 7 de novembro de 2017

regalos

vai doer quando eu cantar
estas canções ordinárias
tiver receio de me despir
ou tomar um café forte

a memória é um filtro duvidoso
(escrevo para me lembrar 
o porque de fazer essas coisas
tão longe de você)

domingo, 29 de outubro de 2017

eles não estão prontos

criar filhas com braços fortes
para carregar bandeiras
ventres livres
para parir outro mundo
e um coração preparado
para a solidão

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

outras maneiras de dizer

diz que falo muito do amor
porque não vê
o amor é uma faca
delicada, mas afiada
observe o amor cortando o
medo quando retruco
tão lindo esse livro
sobre coisas de menina
esse poema de Ori
é o amor que secciona
o medo em sua fala
você diz
- se em sua comunidade não
querem falar de Ori, não fale
bater cabeça, diz o amor
também pode ser
dizer não
o amor aparta entre
os dentes este seu susto
- não discuta essa historia
de coisas meninas
o amor parte ao meio
a cena dos pardais
no terreiro e proclama
há outras maneiras
de se sentir em casa
o amor esmaga entre
os dedos o medo
quando eu escrevo
um poema de amor

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

tão pouco

É pouco, tão pouco
um sorriso que sustente os dias
mas não o é esse canto dos grilos
a suportar a noite nos olhos?
enquanto você dormia
eu arava meu afeto, sutil
e leve como todo amor
deveria ser

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

por culpa do imprevisto

que ruidosa é a chegada da noite
(ora, a quem eu quero enganar?
o silêncio que sua ausência impõe
nenhum verso abafa)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

dissecção

uma mulher lança mão
de táticas de peixeiro
e abre o ventre
entre as vísceras a bile
um fardo de fúria
(o que é isso? uma pedra?
um rim?)


há que se considerar
respeitosamente a história
antes de lançar fora um apêndice

não sabe o que fazer com a dor
de não ser só, só sua
a regularidade dos abismos
a atordoa, um poema às vezes
é uma belíssima adaga

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Estrangeiros em nós mesmos seguimos inventando interlocutores que acolham nossas vicissitudes, amores que nos presenteiem com palavras, com manhãs ensolaradas.
Isso me faz pensar em quanto as invenções de Pessoa poderiam ser úteis nesses tempos de identidades fluidas. A propósito, penso que nunca mais vou ler o Pessoa sem me lembrar de você. Algumas pessoas, quando me atravessam, deixam fragmentos indeléveis.