domingo, 28 de agosto de 2016

geração perdida


em zaatari brincam com seus fuzis de plástico
em yarmouk comem a grama pisoteada
houvessem anjos lá
seriam inanes

sábado, 27 de agosto de 2016

meu amor me reivindica

meu amor me reivindica com seu corpo mesmo
geme e soluça enquanto dorme
miro seu dorso vulnerável 
nesta hora sou sua mãe

às vezes esgarço as palavras até a exaustão
afim de obter pequenas doses de paixão
daquelas doídas 
que esperam bilhetes 
na gaveta de calcinhas
e telefonemas eróticos no meio do dia

mas logo me recolho às minhas varandas
porque meu amor me reivindica

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

ser amada

ser amada
ter esquecido
a torneira aberta
por duas horas
ter inundado a pia
o banheiro
a casa
e ainda ser amada

ter usado aquele
ridículo meião
vermelho
e ainda ser amada

ter enlouquecido
por sete vezes
seguidas
e ainda ser amada

peneirando é só isso que a gente quer





terça-feira, 23 de agosto de 2016

Literatura no Boteco

O terceiro episódio do Literatura no Boteco é comigo, lá no Malleta meu lugar de amor em BH. Falo sobre o “Borda”, sobre a influência do mundo na obra do artista. Declamo alguns dos poemas do "Borda". Não perca.

fusão

mira-me de um ponto alto
fora do meu cenário íntimo
e veja minhas mãos
nas omoplatas
simulando o abraço
o beijo que me roubarás
no dia em que eu for para ti
completamente irresistível


o que não pode ver
te faria estremecer
sou capaz de imaginar
intercursos violentos
beijos enfurecidos
tudo tão quente, tão quente
quanto essas tardes atípicas
do outono de agosto

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

ícone desidratado

a noite não dá trégua aos insones
(subir as escadas deveria
ser o melhor do amor
não fosse a pressa)

permanecer ancora viva
a chorar amores que não terei
ignorar as tentações sem volta





pés cansados de equilibrar os saltos
sobre montanhas de perguntas
01100001 01101101 01101111 01110010 
é o código binário para a palavra amor

sábado, 20 de agosto de 2016

Melina Alexia Varnavoglou [tradução norma de souza lopes]

às vezes quisera ser um homem 
para poder dizer-lhes
sem temer que me confundam
que eles são em verdade maravilhososos
que adoro suas imposturas
e o espaço exato entre a munheca e os cotovelos
seus cabelos despenteados e as mãos sempre algo misteriosas
e essas caras que às vezes fazem uma mulher rir
que todo esse rodeio é desnecessário
é até pateticamente bonito
que imagino raios tensionando-lhes as costas
por esse nervosismo
que quando estão relaxados ninguém crê
que são realmente grandes, quando abraçam seus amigos
e falam dela ou de suas bebedeiras depois da festa
que em seu peito liso eu poderia pousar sem pausa
minha cabeça por toda a noite
até dar em alguma coisa
quando calculam, sonham, quando ejaculam, quando duvidam
quando não podem

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

consolo

a primavera está lá fora
juntando as folhas
enlouquecida
quer pintar
um milagre na parede da sala

e eu agora entendo
a primavera retorna
mesmo depois que eu partir

caiu uma nódoa da vida
na barra do vestido do poema

domingo, 14 de agosto de 2016

Das frestas e da intensidade de sua luz

Amor de pai é uma lacuna de jogo de montar onde não cabe enxerto, exige peça exata. Mas a gente resiste e enfeita as bordas. Tá cheio de gente assim por aí, umas frestas decoradas de dar gosto, de onde saí luz intensa o suficiente para dissipar nossas sombras.

Para João Paulo de Lorena
Primeiro eu queria ser invisível, agora tou tentando ser transparente. Qualquer dia sumo de vez