sábado, 3 de dezembro de 2016

da arte de lamber as feridas


não sou dessas que aproveitam
a queda para voar
demoro a me levantar

invisível à lupa do google
permaneço na sala de espera
não fui asceta o suficiente
para vencer



de tão larga a ferida
que parece um sorriso
dou graças pela língua bífida
poemas e piadas 

tivesse chovido
eu ia pensar
"a tristeza é tão óbvia"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

uma mulher

como quem se prepara
para um encontro
com o nunca será
uma mulher
(que às vezes sou eu)
escreve

escreve para encobrir
os lamentos da falta inominável
escreve para se reerguer
dos tombos dos degraus da vida

a falta é um cálculo na carótida
e dos tombos só restam
as cicatrizes nos joelhos

dia desses uma mulher
(que às vezes sou eu)
iniciará o caminho avesso
de arrancar as páginas

é tudo uma questão de tempo

terça-feira, 29 de novembro de 2016

mais uma tragédia no jornal da manhã

não como um bloco de nuvens
de árvores ou de areia
fronteira com o mar
não é assim
que ás vezes
o mundo revela-se a mim

é mais como um carro anfíbio
com esteira
uma fileira de animais selvagens
em fuga

pela manhã
arrancar do chão
essa pasta
atropelada por tanta tragédia
pensamento em bloco

sábado, 26 de novembro de 2016

só por uma noite

marquei um encontro comigo ontem
desses sem vinho, sem velas
apenas música, dedos e sussurros
cuidei de me alegrar
por compartilhar comigo
estas cidades
este século tenebroso
sem renunciar à luz
dei de mão
para espantar os fantasmas
tão mortos
mas ainda preenchendo
minha caixa craniana 


dispensei os gritos
de minha árvore genealógica
só por uma noite
você deve estar se perguntando
tudo isso, e sóbria?
sim sóbria!
ébria perco a poesia
do encontro comigo

por uma noite entendi o amor

Foto  Marc Riboud


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

projétil

da rua, a janela
da janela, a estante
da estante, livros
e nos livros
gritos domesticados
um desperdício de revolução

câmeras automáticas

demora alguns dias
quando se aprende 
fica mais fácil
ajuda saber como começa
e como termina
só é preciso dizer sim
ao que se segue

primeiro é preciso profanar a tristeza
diante das câmeras automáticas
tecer sonhos sob o jugo cinza do céu
revisitar lugares na esperança 
de encontrar um grande amor

depois cabe abrir o ventre 
à posse indômita da paixão
(que não vem), amar 
com imensa raiva no coração
e desfiar segredos de amor 
entre os dentes

por fim deve-se sangrar os dedos 
podando roseiras estéreis 
cravar as unhas nas mãos
ceder à tração da melancolia
até atingir a posição fetal

como eu disse
só demora alguns dias
e então poderá começar
a se desenrolar
e profanar a tristeza
diante das câmeras automáticas 

domingo, 20 de novembro de 2016

o que eu queria

Para Fabrício Corsaletti

eu não queria essa vocação para amar, essa febre 
tampouco a consciência contínua 
de que não cabem três felizes 
numa história de amor

queria os gritos da matilha 
traduzindo a voz da noite
mas ainda há o medo da dor
a solidão, o silêncio, o desamor
380 kilos por polegada quadrada
é a mordida de um lobo

sábado, 19 de novembro de 2016

Converso com minha tristeza todo dia, é preciso amansá-la. Acharia imperdoável não dançar e não festejar. Tantos dos meus sucumbiram, perderam o direito a vida. . Dançar e festejar é o minimo que posso fazer pelos amigas e amigas que perderam o direito a vida por não ter nascido no lado protegido da história.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

um cavalo galopando em meu peito

dispensados os lastros do passado
coleciono abismos festivos
ainda não sei as asas
mas anseio a hora de saltar