terça-feira, 31 de dezembro de 2013

trinta e um

é verdade que odeio a barbie 
mas teria amado se você tivesse 
sobrevivido à cirurgia de estômago 
e se tornado uma droga de uma barbie

entendi que não há saída 
há quem ganhe e há quem perca 
quem ganha nem sempre são os bons
estou pronta para viver com isso
também estou pronta para herdar 
as avencas de minha mãe

continuo achando o amor impossível o mais bonito
mas hoje é trinta e um de dezembro 
e eu queria muito acreditar em um mundo 
em que os bons ganhassem, e vivessem para sempre

NSL
31/12/13









domingo, 29 de dezembro de 2013

Para o Vitor Heringer me aceitar no facebook

você tem cinco dias para me convidar para um inferninho
você tem quatro dias para me servir um drink flamejante
você tem três dias para ir comigo à um show de jovens nus com suas toalhas esvoaçantes
você tem dois dias para correr pelado comigo 
você tem um dia para me aceitar no facebook
se apresse baby, estou com os dias contados 

NSL
29/12/13

nativa

a mãe da mãe da minha mãe foi pega no laço
a mãe da minha mãe foi pega no laço
minha mãe foi pega no laço
eu, por precaução 
perambulo nua em pelo

NSL
29/12/13

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

concessão

ouça o chamado da loba
é igual para todos os homens 

possua cada orifício 
com amor
ou com violência 

mas que não se ouça 
nem um gemido 
que não seja permitido

nem um gemido 
que não seja permitido

NSL
27/12/13

flores tem hora para dormir

sem saca-rolhas, fracasso
em quebrar o bico da garrafa
ou cortar o fio da vida

ela me chama de "flor da minha vida"
conta o sonho dos canibais    
diz que sonhos são só as coisas que a gente sente  
e o que a gente sente é só uma parte de nós
daí lembra  que dói mais não ficar

enxugo  a água 
que verte do rosto
do corpo, das paredes
das ruas, e embaixo das rodas
mastigo o último pedaço de picles 
e tomo água com gelo

porque flores tem hora para dormir

NSL
27/12/13

a pele é o palimsesto do amor

pela terceira vez amou
(se contasse a paixão pelo
professor de matemática
aos doze seria a quarta)
tatuou do lado esquerdo
do ombro bem abaixo
do esterno, em gótico
o nome do amor

amou pela quarta vez
(ou seria quinta?)
tatuou um gato preto
sobre o nome do amor
com gatos o lance é outro
amor eterno é para cães

NSL
27/12/13

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

36 cores

Resolvia fácil. Meu anjo da guarda não bate. Bastava olhar. Podia ser uma bunda. Uma bunda grande mesmo, não das largas, mas daquelas que fazem voltas para fora, no ângulo da coluna. E lá vinha o anjo dar o ar da sua falta de graça. Não batia. 
Não era despeito racional. Não mesmo. Era um jeito simples de resolver a ameça diante de bunda maior que a sua. 
A partir daí surgia as sementes. Projetos de siliconagem. Então destinava um ódio avassalador à bunda e ao seu dono. Convertia este ódio em trabalho. 
Dezesseis horas por dia, escovando alisando e pintando cabelos, juntando economias até poder pagar pela bunda perfeita.
Daí até o implante era um pulo. E ele surgia, quase sempre prefeito. Respeitado o período de repouso procedia o desfile na medina com a nova bunda.
A treta com o anjo estava resolvida e era possível ver os dois curtindo suas belas bundas nas baladas gay. Mãos ombros ao som das músicas da Rihanna.
Mirando os dois na pista eu sempre me perguntava que diabos levava um homem a querer ser o objeto de desejo de outro homem ostentando um belo pedaço de carne ao modo das mulheres. Homem é tão gostoso que dava para comer como homem mesmo.
No banheiro, lá pelas tantas, depois de beijos de línguas endoscópicos, era possível ouvi comentários carinhosos acerca do sonho do casamento oficial. E eu querendo gritar:
_ Hei guys, casamento é dormir juntos, o resto é lixo. Macho Alfa.Divórcio. Meus bens. Sai dessa. Vai trepar muito. O resto é marketing.
Mas não digo. Cada um. Cada um.
Tive uma caixa de lápis de cor de 36 cores que era a inveja da escola. Tá certo que já era ensino médio, mas eram 36 cores, cara. Esta é a inveja mais saudável que já presenciei. Nem uma cor igual. Era nisto que morava seu valor.
Aprecio quem consegue identifica o outro como legitimo outro na sua pot
potência, aprecio anjos da guarda que gostam de todo mundo, aprecio quem deseja exercer sua potência de variar, aprecio quem compreende que o amor não é casamento, apesar de ser ocasionalmente (oi eu aqui) e finalmente aprecio caixas de lápis com 36 cores pois elas são a maior evidencia que a beleza da vida está na diversidade. 
Mas, se inveja for fodida mesmo, então não há recurso: economia, 16 horas de trabalho, lanternagem e pintura e divagem absoluta por que não há nada pior que recalque bate e volta. 
Cabelada e golpe de bunda meu bem. Até a próxima ruga.

NSL
26/12/13

assolada

atrás de mim, veloz
uma rua de tijolos 
se desfaz

anjos me abraçam 
sussurram uma ordem 
_ morte, volte!

me pergunto
para qual morada? 

NSL
26/12/13

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Festejos de fim de ano iluminam ausências, desnudam solidões. 
Ainda assim, a maior parte de nós não desiste de festejar.
É assim que venho aprendendo. Espero que cada um dos mais de 900 companheiros de Facebook que tenho faça esta escolha também. 
Festejem. Sempre. 



NSL
23/12/13

Bom Dia Carol Souza

Não deu para ser em poesia, vai em prosa, viu?
Aos nove anos conheci uma Carolina, as mais linda da classe. Quis me chamar Carolina para ser bonita também. Cedo vi que não funcionaria. Então decidi o nome da minha primeira filha: Carolina.
Ter uma filha seria a oportunidade única de ser tudo que não fui: linda, discreta, delicada e circunscrita. E como um milagre você trouxe em si todas estas qualidades. Acho lindo ficar observando-as em você. 
No entanto neste seu aniversário de 17 anos queria te dizer que, apesar dos meus sonhos infantis, você existe para ser o que veio para ser em potência, não para negar ou afirmar um desejo meu ou de seu pai.
Você é livre para existir como quiser. É você que escolhe princesa.
E o mais curioso é que eu acho que você já sabe disso.
Feliz Aniversário!
Te Amo!

Norma

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

o viço dos frangos
penas coloridas 
cintilam a chuva
pernas em fuga

brotos de maracujá
devorados

NSL
22/12/13

domingo, 22 de dezembro de 2013

sábado, 21 de dezembro de 2013

trivial

ficar imóvel não adiantou
arrancar a vontade não adiantou
arrancar a pele não adiantou
a falta não parou de doer

a  água, ah a água 
estava podre
alucinei corpos boiando
minhas veias entumecidas
eram o único sinal de vida

restou esvaziar gavetas

lançar fora toda inútil erudição
agora goles diários de banalidade
serão o suficiente para sobreviver

NSL
21/12/13

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Acalanto

esmiucei a memória
à procura da palavra 
chave que me interditou
e o silêncio  sussurrou
uma canção inaudível

ousei inventar 
uma palavra nova
acalento-a em meu colo agora
vou criá-la solta 
no terreiro da maloca

NSL
20/12/13

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

placenta

ouço o som da água
na palavra placenta
e ele me ensina
a não derramar
nem mais uma lágrima
pelo que não pode 
chorar por mim

NSL
19/12/13

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

a la bourdieur

desfilo orgulhosa 
minha ignorância 
hereditária
conformada
com a falta 
de capital 
cultural

afinal, minha mãe 
desconhecia
a guerra fria
a contracultura
a ditadura
e a abertura

(e a falsa rixa 
entre os Beatles 
e os Rolling Stones)

milhares de livros
miríades de bites
de internet 
não solucionaram
meu handcap


NSL
13/12/13


da improbabilidade do óbvio

minha amiga lê o destino nas cartas
com delicadeza desfia o futuro 
entre os dedos 

minha amiga gosta de ouvir de perto o sussurro do acaso

NSL
13/12/13

benesse

com minhas mãos hábeis farei embrulhos bordados 
embalarei meus pensamentos tenebrosos
(os mais desenfreados)
e os darei de presentes aos caridosos
que todos os dias me soterram 
com suas receitas ingênuas de cura
afinal presente não se recusa 

NSL
13/12/13

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cor de Carmim

Naquele tempo um bando de retardatários do ensino médio noturno lotava os bares do centro nas sextas à noite. 
Ainda se chamava segundo grau. 
Os dois engataram uma conversa, tomaram vodca com almôndegas e depois foram transar e fumar maconha num motel barato da avenida Paraná.
Ela fazia loucuras na cama, dizia que era ninfo.
Saíram  juntos por mais de um ano.
Na formatura ela já estava grávida.
Decidiram dar um tempo nas drogas e morar juntos.
Compraram um abajur cor de carmim igual ao do motel do centro.
No aniversário de cinco anos do filho ela contou que nunca havia gozado.
Os dois choram tanto que as lágrimas inundaram o barraco.
Até hoje quando chove eles se lembram daquele dia.

NSL
12/12/13

natural

uma fúria selvagem 
espreita em mim
a fim de sufocar
a servilidade mamífera 
inscrita nos genes
código de mãe
dos vínculos do mundo

sob a pele domesticada
e olhos sorridentes
a qualquer momento
a mãe natureza emergirá
água, fogo, terra, ar
tsunami, tempestade, vulcão
terremoto, avalanche, tufão

(disparados tais acidentes
seria uma boa ideia
não cruzar o meu caminho)

NSL
12/12/13





quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Toda vida é isto

toda vida é isto
flanar deslumbrando a vitrines 
cruzando as esquinas
provando toda sorte de gostos

depois recuar
tangendo esse carrinho de mão
recolhendo os restolhos 
que ficaram pelo chão

toda vida é isto
este ir e voltar sem fim
cada vez mais curva
cada vez mais turva

NSL
11/12/13

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

só posso gritar

ou estão de joelhos
e felam toda forma de poder
ou estão de fora
e lançam olhares esverdeados
aos que estão ajoelhados

eu perfuro com flechas 
meus joelhos e olhos 

NSL
10/12/13

domingo, 8 de dezembro de 2013

Cativa

desde que nasci 
ela mora no meu nome
dama normativa
legisladora odiosa

esta noite foi aprisionada
enviada aos calabouços
dama assassina
ladra de vida

dia de festejos
teço amuletos
enfeito a casa
sarau de sonhos

meu príncipe
o cavaleiro amável
já chegou
sorri diante de mim
ele ama ver-me livre 

vigiem os portões, soldados
que essa dama é sorrateira
desliza entre as grades
e duvida, pode estar de volta

não soubesse eu que sou todos
os nobres e súditos do palácio
convocava os sensores 
enviava até a masmorra
e quebrava o pescoço
desta dama ordinária

NSL
08/12/13

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

auto encantamento

Há cada resposta errada
para a vida 
da casa
minha mãe gritava
_ Retardada!

Quis negar a sina
fiz a cabeça funcionar 
apressada

Fatigada
viro bicho
lagartixa
corpo inerte
auto encantada

NSL
06/12/13

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Canção para acordar

a voz para
a voz paralisada
desde os avós
pela civilização

acorda 
velha índia
desata o laço
da falsa domesticação

NSL
05/12/13

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013



Sutura

Alguns poetas escrevem como se jogassem trisca ou bolinha de gude. Buscam o alvo, brincam. Invejo tal escrita. Pouco sei brincar. Costuro feridas. 

NSL
04/12/13

esquizofrenia

bombardeio pontes
imóvel
nunca tive lugar
chamado casa

gigolô de sonhos
insone
só outro nome
me salva

NSL
04/12/13

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

domingo, 1 de dezembro de 2013

Último dia para a lua cheia. Atravessei a rua para vê-la e ela não estava lá.
Então vamos simular.


imago

na redoma quente
sob a agudeza do alfinete
visito a morte com mais silêncio

NSL
01/12/13

temporã

com oito anos 
dei o primeiro beijo
chamava-se Natal
o menino que beijei  

bastou um dia 
para ele confiscar 
anel presenteado
e passá-lo carinhosamente
à próxima namorada

Natal inaugurou 
décadas de rejeição

NSL
01/12/13

ambígua

recuso o convite 
para a alcova do noivos
toda promessa fracassa

minhocas brotam 
das plantas dos pés
vagina inútil das violetas

jangadas são deriva
e milagres, enfermidades

NSL
01/12/12

sábado, 30 de novembro de 2013

Ambiguidade

no Muro do Sartre
ela conheceu Lucien 
passou a curtir 
sexo anal
sentia-se 
macho

NSL
30/11/13

A memória dos cachorros


não acredito na memória
nem na minha nem na de ninguém
cachorros sim, podem contar histórias
eles estiveram presentes 
nos momentos mais importantes

estavam comigo
quando aprendi a brincar
presenciaram meu primeiro 
banho de chuva deliberado
contrariados, é preciso dizer

e foram os cachorros 
os primeiros a me contar
sobre a morte 

NSL
30/11/13

Remanescente

unhas feridas na queda 
não evitam o desamor

mas de nada vale o rancor
no final, é nos braços
que levamos nossos pais

NSL
30//11/13

perfume de periferia

[Dario Miale]
poetas colecionam amores
e nunca desistem 
principalmente 
dos que tem seus nomes 
em letras de canções 
poetas não se matam mais
já não estão sozinhos

amor vagabundo é vicio
basta um gole
mais vale a felicidade fácil
churrasco ao meio dia
cerveja na calçada
música cafona
e crianças ao redor

poetas sofrem e choram 
contemplam de longe
amor perdido
irritantemente feliz 
sem esquecer que
apesar da bela grama
todo mundo é castrado

NSL
30/11/13

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

composição

mergulhar na infância
e mirar com graça
mãozinhas
e joaninhas em fuga
na horta

o canto da cigarra
abafado pelos gritos
do pai e da mãe
na cozinha

ah, manoel de barros
me ensina a inventar
memórias felizes?

NSL
29/11/13

Gorado

diziam ser o pequeno Diego 
filho do Cirilo, um caminhoneiro 
que se meteu a bodegueiro

o olhar romântico do povinho
achava o rosto e a crânio do guri
escarrado e cuspido os do vendeiro

até que a mãe apresentou como pai do miúdo
um ex-presidiário proxeneta e fanfarrão
sem honra nem disposição

o povo da cidade perdeu o fascínio 
e o Cirilo seguiu seus negócios com a família
se servindo da  mãe - e do menino

NSL
29/11/13

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Inflamação

de dez em dez anos queimo cartas
mas há pontos costurados e visíveis
cicatrizes de amor nunca somem

ah, este amores perdidos
capazes de lavar e pentear-me os cabelos
como quem cuida de um ancião

nunca tocam minha pele febril
tantos cuidados, assepsia
e eu a espera de arranhões


NSL
27/11/13 

Sinais de fumaça

nem toda manhã é amor
dividimos o querer
ora eu, ora você

anos a fio 
te esperando dizer
hoje leio signos

o abraço trêmulo
é a senha do desejo
a sombra silente no rosto 
demanda precaução

sem violência
recolho cada grão
das memórias 
que calaram tua palavras 
de amor 
e de medo

NSL
27/11/13



Silente

como não amar 
sua curva na coluna
um corpo que recua
e interroga ao mundo
te amo como espelho
por ser aquela que
até na forma
deseja aprender

e te amo pelo caráter
insolúvel, puro
garota serena
autêntica
Lorena

NSL
27/11/13

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Crepúsculo

[Luciano Candisani]

às horas: dezoito
novembro de mês de tornados

sobre a cabeça

no colo 
um corvo amarelo chora
acalante-o

uma sombra avança
sobre a réstia de sol
mergulhe

feche a porta
para o absurdo 
do mundo 

confie
a poesia te trará a tona


NSL
26/11/13

Aboio


[Adam Jahiel]


rápido e rasteiro
o poeta 
laça palavras
nas pastagens 
do pensamento

palavras são os bois do poeta

NSL
26/11/13



Transgressão

sempre que eu brincava na rua a mãe me batia
agora é na rua que eu invento a desobediência 
brincando de poesia

NSL
26/11/13

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Deusa de festim

[Fabio Fabbi]

ando cansada de ser mater dolorosa
uma miríade de deusas da fertilidade
só para gente padecer no paraíso
que falta me faz uma deusa de festim

na próxima maternidade juro que perco o juízo
e trato de parir um tamborim

NSL
25/11/13

era uma menina triste

[]

era uma menina triste
conversava com muros e grades
comia folhas nos cantos úmidos do quintal
a fome havia roubado
seu lugar de corpo alimentado

era uma menina triste
companheira íntima da raiva
sem amigos de verdade
a violência havia roubado
sua capacidade de ser tocada

era uma menina triste
rodeada por homens maduros
barganhava amor por sexo inseguro
faltava o que o incesto havia roubado
seu nome na família
sobrinha, irmã, filha

NSL
25/11/13


refluxo

um palco de dois palmos
num átimo sou hilda, adélia, virginia
costuro bordas, desvendo o vazio
irmano com uma gangue 
de amantes das palavras

eu não sabia que existia
esta qualidade de alegria 
sutil, destilada, volátil
capaz de escorrer 
por dias sob a pele 
resto de orgasmo

fosse a vida um sarau
eu acolhia feliz
o nascer ao avesso
em que se converteu
minha existência

NSL
25/11/13

domingo, 24 de novembro de 2013

Amuleto


Estou costurando bordas para fazer um poema-patuá.

agulha e linha é a alegria  que ganhei num sarau. 


NSL
24/11/13

sábado, 23 de novembro de 2013

Estive ontem no Bar do Bozó, no Barreiro,  para desfrutar mais um sarau com a galera do Coletivoz Sarau de Poesia, Sobrenome Liberdade, Sarau Vira Lata e Poetas Ambulantes. Para estar lá contei com a logística e generosidade de Debora Antoniasi del Guerra,  uma das amigas caras que fiz nos encontros do Coletivoz. 
Como sempre volto enebriada e convicta de que ninguém segura a poesia quando o veículo é o sarau. Encontro sublime de poetas e cronistas da vida que vivem da borda, pra borda, e na borda.  É foda assistir a carícia da literatura na cara do Rap solto na voz de meninos e meninas do repente. Fiquei maravilhada com a dinâmica poética do pessoal de São Paulo, performance poética das ruas e dos ônibus em SP. 
Mais uma vez constatei o óbvio, somos nós que fazemos a nossa mídia. E ela funciona por que faz valer a politica do encontro. Aprova disso foi o Bar do Bozó lotado - e a propósito é preciso dizer que o Bozó é um poeta fera.
Muito obrigada a todos que tornaram este encontro possível. É este amor que enche meu copo vazio. Dokttor valeu a companhia. Você tem razão: é uma oração. 

NSL
23/11/13  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Inveja

entre a madeira morta do assoreado
seis capivaras descansam

despretensiosas 
compõem o crepúsculo vespertino
plácidas como a água

NSL
21/11/13

Constatações

cinco segundos e o pensamento muda;
quatro décadas e corpo ensina;
três voltas pelo universo;
duas doses extras de lítio;
um século e a ciência mostra que é mágica.


NSL
21/11/13

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Quanto cabe no vazio

o dia de arrancar as coisas chegou
o caminhão está à porta

comece encaixotando tudo que é solto
e arrancando os móveis do lugar
arranque os quadros 
pregos, parafusos
arranque telhado, a tinta das paredes
as paredes
o piso, toda a casa
arranque as árvores e o jardim

agora varra o terreno
certifique-se que nem pele, nem pelo
ficou, de quando você amou

e arranque-se  

um buraco
no chão batido do lugar 
é o que deve ficar

NSL
20/11/13

Coisas

Coisas se cansam de nós
umas quebram
outras costumam 
se esconder
(dada a proximidade,
óculos principalmente)

coisas gostam de escolher


NSL
20/11/13

terça-feira, 19 de novembro de 2013

querido deus

querido deus
eu queria voltar no tempo em que 
meu pai e minha mãe eram pequeninos 
para brincar com eles de família

mas deus, preciso de proteção nessa empreitada
temo que vaze o dreno de dor 
que levo no lado esquerdo o corpo

temo que derrame-se e azede a brincadeira toda
algo que poderia ser fatal para à minha existência

NSL
19/11/13

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

diapasão

quando a alegria chegar
vou soltar os bichos
animais-jardineiros
é preciso dizer

o gafanhoto
o beija-flor
a formiga
a abelha
a cuíca
a cotia


vou aspergir
um arco-iris
reverberar
diapasão

por enquanto não

NSL
18/11/13

moralidade da pedra

passo os dias instalando a letargia
acho o tédio melhor que o ódio
a imobilidade das horas 
escorre minha crueldade
afaga meus monstros

o rancor é um câncer bem guardado
a espreita e a culpa, uma voz doce  
sussurrando continuamente
sente culpa, é boa

No entanto nada muda o óbvio
são odiosos os que eu deviria amar
é patética minha fantasia de bondade

NSL
18/11/13

Adesivos anti-escrita não curam problemas de vista

escrever e  esperar que alguém desmonte meticulosamente o que se escreveu a procura de símbolos ocultos.
escrever e esperar que alguém sinta-se inspirado a escrever.
escrever e guardar na esperança de que um dia alguém leia.
escrever e queimar por medo que alguém leia.
escrever e postar.
só escrever.
escrever.

reler
rever.
viver.
ver.


ê vicio besta.

NSL
17/11/13

sábado, 16 de novembro de 2013

Ode



quis escrever este poema
para todxs xs meninxs
do quinto e do sexto ano
xs dedicadxs,
estudiosxs,
xs bagunceirxs,
mimadxs,
brancxs
pretxs
todxs xs meninxs 
do quinto e do sexto ano
xs obcecadxs
pela rua
naruto
desenho
grafitti
pipas
flores
pedras
vermelhas
de itabira
todxs xs meninxs 
do quinto e do sexto ano
estão
nestes
versos
que não vão ser lidos
em sala
na última aula
de sexta - que é
quando
todxs os meninxs
surtam
perdem a calma,
mordem o lápis, a caneta,
mastigam
borracha,
agarram 
os cabelos
do desespero
e metade deles
boceja (boca aberta
e felina
comendo
o tédio que
engole os corredores,
as escadas,
os professores, cantina)
neste momento
vão ler
potter, mitologia
- quem quer
que seja: cecília - adélia
mas este poema, não,
ele é daqueles
meninxs do quinto e sexto ano
que negociam balinhas,
beijinhos,
bijuterias,
- matam
as aulas, riscam
as cadeiras, confessam
nas portas
do banheiro: que vergonha,
não sei contar ou 
porque o marcelo 
não gosta de mim
meu pai não me dá 
um playstation
odeio a professora de francês,
sinto falta do meu avô,
não gosto, detesto
meu nariz
não consigo passar
em português: e vocês?
este poema
é de todxs xs meninxs 
do quinto e do sexto ano: 
pelo menos daquelxs
que leem poemas
vocês vão aprender 
crescer
fazer poemas
escrever livros
e eu não vou ver
que pena
NSL
16/11/13