sábado, 28 de novembro de 2015

Era uma tarde de novembro, quente e úmida como qualquer outra. Sentou-se na cadeira dobrável fora de casa fazia em fins de tarde de domingo.
O primeiro lagarto apareceu e parou diante dela batendo cabeça como se avisasse posse sobre aquele território. Não estranhou. Nem quando o segundo lagarto enfileirou-se ao primeiro estranhou. 
Em meia hora eram nove. E não saiam, só batiam cabeça.
Quando a penumbra foi muita levantou-se com cuidado para não pisar em nenhum deles. Eram mais de cem.
Na segunda de manhã observou aquela massa cinzenta de lagartos que se estendia até o fundo do quintal. Não foi trabalhar. Ficou observando pela janela.

NSL
28/11/15

terça-feira, 24 de novembro de 2015

nove dias colhendo ovos nos quintais de clarice


minha mãe não foi violada na guerra
porque vejo deitar em sacos pretos os corpos de meus tios?
(eu nem tenho tios)
meus irmãos são baleados a todo momento nas esquinas
(crês que não tenho irmão?)
minha madrasta foi violada e  arrancaram-lhe os olhos
(não tive pai que me desse madrasta)
em qual momento me tornei puro fragmento
simulacro das dores do mundo?


sofro pois sua sintaxe quebrada não me junta, clarice
lança um silêncio impetuoso na língua que inventas
sentes o pulso da perda olhando fundo na sombra
(eu não)
minha dor é carne rasgada exposta sem vexame
meu silêncio tem parentesco com a morteah, clarice, se eu soubesse cerzir
caseava minha alma com palavras

NSL
24/11/15

domingo, 22 de novembro de 2015

amanhã

amanhã será segunda-feira
correndo tudo bem
baixarei sobre mim a tampa
dei-me ao trabalho de fazer as contas
do advento da agricultura até aqui
é impossível impedir
a vitória dos que tem mais
não só por isso
sempre fui uma mulher sem sorte
nada me deu a vida 
que eu não lhe  tenha arrancado
à unha- até que me ensinaram 
deve ser aparada no osso
perdi a lama na minha infância 
dos banhos de enxurrada nas grotas da rua
dos jogos de finca na terra molhada
a memória ficou manchada
o gozo pobre dos bares
balcões onde homens 
escarram discretos
e mulheres desfilam 
o cheiro de desodorante avon
não posso, com a turba, o som
o sol-mesmo o de setembro- me fere
e o conforto do quarto escuro
pesadelos apagaram sonhos bons

e depois de amanhã será terça-feira

NSL
22/11/15

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

há dois dias estou morta

há dois dias estou morta
espio de longe
ainda não notaram

corro com eles
ao vento de suas bandeiras
mas estou morta

abaixo de mim a terra entumesce
sedenta por meu corpo morto
que nem o parece

trago pústulas no baço
nos pulmões e no fígado
mas não há inchaço 

não se vão as memórias
a terça-feira vem depois da quarta
e ainda caminho ao sol

volto a casa de minha mãe
e digo: "mãe, estou morta"
e ela me tange para colher a roupa

não paguei a terra
uma lápide de mármore 
em cento e vinte prestações

espero que meu amado cumpra
a fogueira no centro do quintal
longe da horta e das galinhas

NSL
04/11/15

domingo, 1 de novembro de 2015

cativos

o amor é aquele que sopra as chamas
quando nos sobrevêm a chuva
é aquele que lança luz sobre as sombras
o amor dança sapateado e prende o nosso olhar
sussurrando a todo tempo "vai melhorar"
enquanto choramos diante de  uma nação 
em chamas devido ao ódio
nação não, esse amontoado de não-seres
que se autodenomina federação
família, igreja, moral, escola
o amor e que molha nossos lábios
com vinho quando testamos o laço
dormentes, sedados e exaustos