terça-feira, 20 de junho de 2017

Pera - Alejandro Aura - Tadução de Norma de Souza Lopes

Estava eu descascando uma pera distraído
contente de servir-me o desjejum,
quando de repente notei o pouco pudor
com que se deixava eliminar a vestimenta
e como soltou umidades e como me escorrias pelos dedos
um jogo lúbrico que me pedia certo pudor que nesta matéria eu havia perdido
e não por isso eu a sentia menos densa e doce
acomodar-se à temperatura de minhas mãos;
a nomeei suavemente no reino das frutas,
a chupei, a mordi, a fiz minha
e escrevo seu nome para que não se apague a memória dos
séculos: pera.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Não Confie - Abel Feu - Tradução de Norma de Souza Lopes

      Te queixas às vezes —e te pões
bastante irritada, e por isso
aliás, não te ofendas— porque dizes
que meus versos te querem mais que eu.
     Bom, bom. Poderia replicar-te, mas, oh!,
te conheço de sobra,  não me ouvirias,
assim, tudo bem, valeu, O.K., d'accord.
E não é por defender-me, mas, ei,
ao menos, digo eu, se estás de acordo,
poderíamos discutir isso? O que você acha?
     Porque, vamos, Que fazem eles por ti?,
Então, o que fazem? Te acompanham? Vão
contigo ao cinema, para um passeio? De bicicleta?
Te escutam quando está de blá blá blá?
Te chamam todo dia —repitopitopito:
todo dia (que pequena conta)—,
por telefone? Einh?
     Tenha cuidado, são ilusão. Não confies
em nem um verso. Mira que eles
—depois não venha dizer que não avisei—,
eles te querem,  apenas, de palavra.
 
http://andresvara.blogspot.com.br/search/label/Abel%20Feu

domingo, 18 de junho de 2017

O pacto de Alfonso Brezmes - Tradução de Norma de Souza Lopes

Se me acende, não aguardes
de mim conversa fiada,
os desgastados ritos do amor,
as consabidas normas,
os regulamentos mais toscos
que matematicamente predizem 
como tudo se tece e destece.
Se me prendes,
não me venha com lenha para um dia
que acaso nunca haverá de chegar,
não me venha brincar o jogo proibido,
se ignora a aritmética e o cálculo.
Não te cubras, não conserves:
organize tua vida para o fogo.
Este é o pacto: se me incendeias,
arde comigo.


Daqui ó http://andresvara.blogspot.com.br/2016/01/alfonso-brezmes.html

sábado, 17 de junho de 2017

poiesis

quantos são os poeta hoje?
me perguntam
e sou obrigada a dizer: menos do que precisamos
é mortificante que tão poucos sejam poetas

mesmo estes mitos desamparados 
essas nuvens errantes 
beija-flores sedutores
mesmo esses
nos trazem algum alento

é tão triste
a falta de poesia em um homem

sexta-feira, 16 de junho de 2017

adicta


escrevo versos
como quem passa o chapéu
a espera de moedas, o amor
a poesia me consome
como um vício
ou seria a paixão?
lembro-me de tuas mãos

tão bonitas
mas inúteis para mim


(ninguém viu
mas no  verso em branco
eu disse seu nome)


August Rodin (1840-1917)

 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

fôlego

repousa descuidado
sobre esse nome: meia-noite
ignora a potência de meu fôlego

se abre só por um instante a boca
assopro entre seus dentes
um sol de amarelo ardente

sou a mulher em chamas

Imagem de Antonio Lee

sábado, 10 de junho de 2017

o diminutivo do seu nome

ontem observei que o diminutivo do seu nome
significa espreita, alvo, desejo
e é divertido como essas palavras dizem de você
porque, como a serpente do poema do igor
estankona, me espreita de maneira que não
se possa preparar a defesa, ou seja
até que eu esteja submissa

o fato de eu ir e voltar
não tem nada a ver com jogo
mas sim com um esforço de desfrutar
da fantasia sem enlouquecer
e só quem me conhece pode
saber como é grande coisa
não enlouquecer

escolhi você como alvo
por causa dessa sombra intangível
que vejo em seus olhos e a impossibilidade
me faz cada vez mais achar que estou certa
porque com você tudo parece dar errado
o que, em minha lógica interna é
uma bela maneira de acertar

que o diminutivo de seu nome também
signifique desejo não é nada estranho
pois você carrega essa voracidade
indisfarçável dos homens que não se
constrangem em desejar o sexo em
sua forma mais primitiva e ávida

os ponteiros da minha bússola
feminista se arrepiam porque
não me parece certo que
uma mulher esteja assim
tão entregue às lascívias masculinas
mas reconheço que seu desejo
desperta minha própria sofreguidão

escolhi não perder muito tempo
com seus silêncios porque
tenho meu próprio tempo perdido
para recuperar e a felicidade
não é uma coisa que se
construa da noite para o dia

não estou dizendo com isso
que renuncio a essa invenção de
você que criei, não é isso
respeito essa imagem como a um poema
e vou cultivá-la enquanto ela
for capaz de me acrescentar vida

na savana que vivemos sou a gazela
e também o tigre e sinto de longe o cheiro
do seu medo, menino índigo
entendo porque não queira lutar
fazer parte dessa geração tão
promissora que não chegou a
acontecer planta em nós fastio e tédio
com as ciladas do sucesso e da adaptação

quem disse que não se ganha nada com a paixão?
você já me deu quase uma dúzia de poemas

quarta-feira, 7 de junho de 2017

uma mulher deve seguir


Eu vi uma mulher e ela moldava um pote em volta de si
Ela guardava a si, suas melancolias, sussurros e medos em um pote

Mas um dia as guerras se instalam e chega a hora de partir
e uma mulher precisa saber viajar discretamente
levar a penas o necessário
sonhos, um caderno, um vestido vermelho

Uma mulher não deve se compadecer de seus sapatos velhos
ainda que implorem: "fica"
que supliquem para que ela continue a dançar
uma mulher deve seguir caminhando sem esquecer que
sem ela eles são apenas um corpo vazio num salão

Uma mulher precisa cuidar para não deixar
os olhos perdidos nalguma gaveta

Quando chega a hora, uma mulher precisa marchar
no caminho, animais perigosos, rios turbulentos
há que evitar novas jaulas, violências
mas vale seguir o curso do rio
sempre é possível saber para onde vai um rio

RUDE Manuel Arana Tradução de Norma de Souza Lopes

Por muito que me esforce
(talvez, por isso eu nem tente)
esse nunca será um bom poemário.

De qualquer maneira, serei sincero contigo.
Quando alguém ensina seus poemas
sempre pretende algo, sempre:
Aprovacão, se estás seguro de que são bons.
Ou críticas construtivas para poder refazê-los
se não as tem todas contigo.
Embora existam duas reações que realmente buscamos.
Uma é conseguir que alguém se sinta contemplado
nos poemas e diga “isso era o que eu sentia”.
Porem a mais esperada
(é que, por desgraça, menos se escuta)
é que o destinatário real dos versos
responda corretamente a todas as tuas perguntas.
Em meu caso seria algo assim como
“deixa já de poeminhas
e vem aqui, porra”.
Daqui ó https://www.google.com.br/amp/s/hectorcastilla.wordpress.com/2012/09/28/manuel-arana/amp/

domingo, 4 de junho de 2017

ontem

tantos versos apagados
até chegar a um poema
me amarrasse ao mastro
e plantasse cera 
em meus ouvidos

nada disso funcionou
a julgar pelo mergulho 
em seus olhos











sexta-feira, 2 de junho de 2017

essas coisas que não se suplicam

há três noites não durmo direito
desamor à beira do nada
procuro fora do tempo
uma palavra que não soe
como grito de socorro
desespero a espera de amor
por puro pânico sussurro meu nome

quinta-feira, 1 de junho de 2017

nada a fazer contra o desperdício

repito palavras para trazer à memória
imagens apagadas por segredo e susto
nada a fazer contra o desperdício
dias em que tu, mais uma vez
não pousou tuas mãos
sobre minha nudez
de leite e outono

amanhece e meu corpo sussurra, "entre"
meu coração se cala, porém
isso de sermos feitos
da mesma massa
orgulho e medo
há de atrasar por séculos
um encontro épico
a mulher em chamas
o homem de sombra
e selva

terça-feira, 30 de maio de 2017

alerta de desastres do amor romântico

crês que amar é um imperativo tal qual viver ou morrer?
amar é uma mentira que ninguém desfaz
vês um gigante de bronze, um Talos?
nem se dá conta que trata-se de uma mulher
a atirar pedras na paixão
embarcação que espreita para aportar


não seriam inúteis seus esforços
uma vez que cumpre eterno retorno
ao lugar de sacrifício
o altar erguido ao amor romântico?


ouça homem, esta mulher
leva atravessada ao calcanhar
a flecha do amor, e haverá de sucumbir
mas como o gigante de Creta
não tombará antes de arder totalmente contigo

sábado, 27 de maio de 2017

haveremos

antes a vida cabia toda 
num caderno de perguntas

e respostas, hoje o que se tem
é o insípido jogo da compensações
impossível arrancar dos flancos
a flecha cicatrizada
resta sorver em goles 
a asfixia da diferença que nos reduz
mastigar frenéticas
nacos de pão e ódio
haveremos de nos vingar
escrevendo com o giz dos escombros 
das paredes que demolimos todo dia
sobre a rasura de nossos nomes na História 
somos mulheres, estamos aqui
desde a fundação dos tempos
e viemos pra ficar 



sábado, 20 de maio de 2017

terça-feira, 16 de maio de 2017

nem todo poema merece perdão

me constrange que não possa
levar pão a cada boca faminta
cobrir os pés de cada menino descalço
acolher cada irmã que sofre desamor
cada irmão que sofre racismo
cada anciã negligenciada
cada cão abandonado

inábil para esgrima, me constrange
estar aqui a rezar padre-nossos
e a falar da beleza dos arrebóis

domingo, 14 de maio de 2017

último poema de amor

nunca fui a solteirona megera
nunca fui a prostituta arrependida
nunca fui a heroína das histórias de amor
nunca fui a menina pura que se casa no final da novela
nunca fui a companheira resignada
nunca fui a esposa adúltera
quem plantou em mim essas mitologias românticas?
nasceram e vivem comigo a solidão e a morte
não há o que temer
ontem escrevi o último poema de amor

sábado, 13 de maio de 2017

aquele que carrega mais verdade

são quatro horas
um feirante cumpriu o seu dia
pássaros concluíram seus ninhos
soldados invadiram países
as raízes do gengibre brotaram no quintal
e eu convicta que fiz muito mais
há horas repassando seu gosto mineral
pousando fundo em minha boca
lembrando o cheiro ocre de suas camisas
no fim do dia, ou de seus cabelos, um mundo
me pergunto porque só agora pode me dizer
"eu te amo muito mesmo"
quando já não era livre
repasso entre os dedos meu futuro
o eterno ciclo de escuro, dores e cura
e constato que, de todos os homens
você é aquele que carrega mais verdade
para trilhar comigo a estrada
dos encontros sagrados
quando não cria em signos
era mais fácil confiar
na autoria do meu destino
mas hoje nada me remove a crença
de que no dia em que nasci
as estrelas escreveram desencontro
nas solas dos meus pés

quinta-feira, 11 de maio de 2017

barricadas inúteis contra o ritual do tempo

não me venha impor suas paixões insanas
tenho as minhas e elas, às vezes, metem medo
já não falo de estações, as palavras azedam na boca
onde foi que eu perdi
a esperança grávida de cada poema?
há algo de revolucionário no silêncio

terça-feira, 2 de maio de 2017

eu não deveria escrever mais poemas

as bibliotecas estão cheias de livros de poemas
as livrarias, os sebos, estão todos cheios
estão repletas as estantes das casas

mas há estes esquecimentos diários
o fogo aceso, a torneira ligada, os óculos
estar diante de você e não me lembrar meu nome
não me lembrar tampouco seu nome
nunca mais me lembrar do cheiro do café
que sua boca exala pela manhã
do olhar de meus filhos enquanto eu os amamentava
das amigas que que morreram sem autorização
de como me senti bela naquele dia dos namorados
com a camisa rosa e a calça preta do meu irmão

e há um poema, essa cunha na porta da memória



  

quinta-feira, 27 de abril de 2017

DECLARAÇÃO ABSURDA Lina Zeron Tradução de Norma de Souza Lopes



“Pelo poder que me confere o estado, na qualidade de juiz ,
eu os declaro marido e mulher". Quando escuto isto, sempre me
pego pensando: “E antes que um juiz nos declare mulheres,
que temos sido todo o tempo?”

Daqui ó http://emmagunst.blogspot.com.br/2017/04/lina-zeron-4-poemas-4.html

segunda-feira, 17 de abril de 2017

plácido

I

é fácil ser feliz
em dias de contas pagas
e solidão planejada

II

no outono o céu é cinza
e nenhuma palavra
parece valer mais que um ato

III

no conforto da cama macia
na saciedade da sopa - penso -
como é difícil amar o sossego


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Há dias de produzir
Poemas em mim
Gosto de ser assim
Poesia encarnada

3x4

sob os alfinetes
uma pequena borboleta
no olhar a adaga
chamada rejeição
anuncia inexorável
gozará ad eternum
atravessada em seu peito

quinta-feira, 6 de abril de 2017

acomodação

decerto me olhavas
como um bombom aberto
e isso nem sempre é bom
quando se espera
ser o prato
o petisco
e a fome

por hoje
nada de gestos dramáticos
apenas um pequeno redemoinho
no terreiro
a fim de dispersar
os cinquenta e dois
meneios de cabeça
em sua direção

quarta-feira, 5 de abril de 2017

linfa

experimente varrer as areias
de um castelo desmoronado
ombros largos, os umbrais
olhos sombrios, as janelas
as pequenas mãos

remover as impressões
digitais

experimente remover da pele
dos músculos, dos ossos
as cinzas de uma Pompeia incendiada
e senti-las impregnadas
correndo entre o plasma
indelével

terça-feira, 4 de abril de 2017

exílios

sob a via láctea prostrada
a lua minguante
como uma vaca
prestes a parir
eu aqui, ajudando
no trabalho de parto
dar a luz a um poema
que faça parar
a turbulência do universo

conta-gotas de sabão
para a bolha
que não estoura
uma faca
fatia os últimos acordes
de uma canção
e para onde eles vão
depois da última nota?

passou por aqui
uma tropa de bárbaros
nos estandartes rubros
dos batedores
bordado com fios
de delírio
seu nome, amor

domingo, 2 de abril de 2017

ainda bem

não importa
que este seja um outono perdido
entre as cicatrizes de meus joelhos
ou que, ao final da história
você venham ser o Príncipe
e eu, Maleficent

para nos colocarmos
de maneira assim tão vulnerável
diante de nós
é preciso esquecer
o quanto, ao final
os contos podem ser cruéis

Coringa e Arlequina não disfarçariam
suas pequenas imperfeições
para dissimular o ridículo
das fantasias de amor
mas, tão loucos quanto nós
dançariam diante do espelho
a cada sinal de desejo

ainda bem que não há doublês
para as paixões de homens
e mulheres comuns
e ainda bem que se esquece
que o molhar dos lábios
a mordida dos lóbulos
são cenas repetidas
em todas as histórias de amor

shame

se sobrevivemos ao naufrágio
foi por tomar distância
da dança atônita
do olhar desesperado 
daquele que sucumbiu às águas

ninguém conta
mas todo mundo sabe

sábado, 1 de abril de 2017

lapso

em abril cumpro
quarenta e seis
e o que é isso se não
nunca estar a salvo
dos saques da solidão?

só aumenta a coleção
de objetos inúteis
a 3 x 4 de oitenta e dois
a primeira rubrica
canções de amores passados
livros que não voltarei a ler

um vento frio
move as cortinas
tão semelhante a 2016
que, não fossem os sinais
do tempo no corpo, eu diria
- meus aniversários estão
cada vez mais iguais

tic
tac
(será o relógio
ou meu coração?)


ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DOS DESEJOS Gabriela Blas Tradução Norma de Souza Lopes

ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DOS DESEJOS
Gabriela Blas

Virgem dos Desejos, amante da vida,
irmã dos sonhos e filha da esperança,
proteja-nos a nós todas
negras, morenas e brancas;
índias, putas e lésbicas;
faça brotar da terra as ilusões necessárias
para que sigamos lutando.

Livra-nos de racistas, homofóbicos, corruptos,
machistas e classistas;
também de pregadores e curas hipócritas
para que nossas irmãs pobres de rebeldia
voltem a sonhar e que nelas se plante a alegria

Proteja-nos dos deuses que nos querem impor
para que não nos privem de provar a tentação de
ser livres.

Faça com que que não falte o pão em nossa casa,
que tampouco falte o mel que adoce nossos dias
e o vinho que acompanha nossas festas,
para que cada dia celebremos pela vida,
pelo amor, a ternura e pelas  esperanças.

Não te esqueças Virgem Nossa
de todas nossas irmãs, mãe e avós
que jazem em teu ventre (a terra),
para que com toda tua sabedoria
aprendamos a amar-nos umas às outras
tanto como tu nos amas Virgem amante e amiga.

Faça com que creiamos em nós mesmas
que a desobediência pode nos corações de
todas as meninas
para que este desejo de ser felizes se renove a cada día
em todas as que vem e venham, para sempre...

Amém
............................................................

ORACIÓN A NUESTRA SEÑORA DE LOS DESEOS
Gabriela Blas

Virgen de los Deseos, amante de la vida,
hermana de los sueños e hija de la esperanza,
protégenos a todas nosotras
negras, morenas y blancas;
indias, putas y lesbianas;
y haz brotar desde la tierra las ilusiones necesarias
para que sigamos luchando.

Líbranos de racistas, homofóbicos, corruptos,
machistas y clasistas;
también de predicadores y curas hipócritas
para que nuestras hermanas pobres de rebeldía
vuelvan a soñar y en ellas se siembre la alegría.

Protégenos de los dioses que quieren imponernos
para que no nos priven de probar la tentación de
ser libres.

Haz que no falte el pan en nuestra casa,
que tampoco falte la miel que endulza nuestros días
y el vino que acompaña nuestras fiestas,
para que cada día celebremos por la vida,
por el amor, la ternura y las esperanzas.

No te olvides Virgen Nuestra
de todas nuestras hermanas, madres y abuelas
que yacen en tu vientre (la tierra),
para que con toda tu sabiduría
aprendamos a amarnos las unas a las otras
tanto como tú nos amas Virgen amante y amiga.

Haz que creamos en nosotras
que la desobediencia lata en los corazones de
todas las niñas
para que este deseo de ser felices se renueve cada día
en todas las que vienen y vendrán, por siempre...

Amén
.........................................
Daqui ó http://mujerescreando.org/

souvenires

escrever poemas
é vingar-se do agora
por em cárcere
o que deixa de ser

nos bolsos da memória
as horas delicadas
a abóbada da Praça da Estação
desvão de estrelas
uma túnica em tons pastéis
o cheiro de carvalho
e suas pequenas mãos
souvenires



quinta-feira, 30 de março de 2017

notícias do front

foste tu a trazer o fumo matutino do outono?
a instalar os detonadores de bombas?
o vento que movia as birutas
nos aeroportos?

acreditei na suspensão da melancolia
mas cedo percebo como é desonesto
desatar as asas
sem aparar o chão
condenados e patéticos sãos os corpos
fora do estatuto do desejo
amam-se de dois em dois
e odeiam a cem
notícias do front
por aqui
continua tudo
sob controle
do medo

https://media.giphy.com/media/3osxYhBYIWt6xoJAuQ/giphy.gif

quarta-feira, 29 de março de 2017

dizer poeta

dizer poeta
é gozar com o corpo
a alma
e o espírito

dizer poeta
é ser essa rachadura
habitada por todas
as identidades
amar como que mira nuvens
e saliva a chuva

naquele cenário
do nascer do sol
das coisas exauridas
nas garrafas vazias
nos cinzeiros cheios
eu quis ser a mulher
arrebatada de êxtase


terça-feira, 28 de março de 2017

líquida

ah, miserável
que puta hipócrita você molha agora?

mentistes sobre eu ser eternamente a única
de quem tu separava a polpa com suavidade, um figo
abria as coxas ungidas pela umidade
como um biólogo diante de sua lâmina
e via o que nem eu mesma via, meu recôndito

sorria malino, abria-me os lábios
cheirava minhas bordas profundas
provava meu orvalho ocre
tu te lembras?
nunca esquecerás, desgraçado

sua ereta lascívia penetrava minha carne
e criptografava meu reservatório quente
fazia de mim uma mulher em chamas

já não sou a mesma 
mas ainda estou aqui, maldito
ardendo feito lava por você

selvagens

aqui dentro
meio a contragosto
carrego sua  selva
seus silêncios
a sombra sisuda
dos seus olhos

eu diria não
se eles pedissem licença
mas eles não pedem

entrincheirada
fabrico bússolas
penduro bilhetes pela casa
para não me perder de mim

domingo, 26 de março de 2017

um homem

que veja beleza
em pernas dogmáticas
ancas largas
na voz desamparada
no último suspiro
de uma náufraga

que saiba alucinar
bebendo a poesia
de um domingo rosa
que saiba todos os sentidos do rosa

sábado, 25 de março de 2017

enquanto

há esta geografia
lugar
espaço
territórios

e há o amor
declarando guerra
ao que recusa
se mover

sexta-feira, 24 de março de 2017

Mira

[norma de souza lopes]

afora o susto
(seus olhos não sorriem)
eu semeava uma casa
uma vida, uns filhos
contigo

uma pequena distração
e eis me aqui
vítima outra vez
desse acidente
o amor

terça-feira, 21 de março de 2017

Ode a ilusão de controle

Nem sempre foi esta luta furiosa pela vida
Às vezes observava a todos na plataforma do metrô
Cada vez mais cedo executar seus dias
E pensava antes do salto fatal
Que era preciso escrever uma carta aos filhos pequenos
Com recomendações sobre o que fazer enquanto crescessem
Até perceber que apenas uma carta não daria conta de uma vida inteira
Seria necessário talvez uma carta por aniversário para cada um
E ainda assim haveriam as lacunas, recônditos que
nem mesmo uma carta para cada dia de suas vidas alcançaria
Restava embarcar e seguir para o trabalho
As lágrimas implacáveis no reflexo da janela do trem
Nem sempre foi essa luta furiosa pela vida

segunda-feira, 20 de março de 2017

estão todos

estão todos a falar de si
lugar onde só cabe um
(exceto por estes
breves momentos
luminosos de lucidez
em que se vê
e sente, do outro
a dor do desamor
da perda
da traição)

não é difícil emular
um certo olhar de cambaxirra
uma curva nas omoplatas
queixo mergulhado no peito
e de repente o outro nos habita

fora isso estão todos a falar de si





sexta-feira, 10 de março de 2017

quinta-feira, 2 de março de 2017

Lembrar que na quadrilha de alguém
A gente é sempre o primeiro
Por isso aquele beijo
Hoje de manhã

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

jura-se

jura-se guardar pra sempre
o CD do 14 bis
o umbigo dos filhos
o primeiro caderno de desenhos
daquele curso no arena cultural
o mapa astral plastificado
as promissórias do imóvel
conchas de jericoara
o sangue do arrebol
naquela ida secreta
ao mirante

jura-se inutilmente
tão perdíveis tais tesouros
quanto estas tatuagens de rena
que nos poemas
chamamos de amor






sábado, 25 de fevereiro de 2017

voo

uma vez vi um corpo nu
descrever uma descida vertiginosa
onze andares
de um prédio residencial

era um corpo ou um homem?

no dia seguinte pedaços de ossos
contavam sonhos irrealizados
nos beirais do prédio da rua Timbiras

espantou-me a pressa
com a qual a chuva
lavou o sangue no asfalto

Foto de Ren Hang
(sinto muito por seu voo Hang)😪


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

jackpot errado

nos anos oitenta eu lia qualquer
pedaço de papel que achasse
tropeçava nas bacias das lavadeiras
lendo a caminho da escola
eu jurava que havia resposta
adequada para o que me faltava

parecia mais fácil responder
que se lhes enfiassem no cu
suas aspirações acerca
do melhor destino para mim
a rejeição não precisava
ter solução

aqueles eram tempos
dos manuais para o sucesso
apare sua raiva pela raiz
jogue o jogo do contente
seja resiliente, ame, ame, ame

muitos anos de luxúria e paixão
(a paixão dura dois anos, dizem)
capítulos de histórias de amor fake
até entender que quando 
sinto que estou ganhando
estou no jackpot errado 


sorte no amor, qual o quê
nenhum livro me contou 
o que hoje me parece óbvio
só desbanco quando 
eu mesma me amo 

Foto Larry Towell


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

se você

você sorri enquanto caminha 
é pensa: "no verão o amanhecer 
pode ser uma coisa alucinante"
em breve ouviremos 
os proclames do outono

se você poderá dormir
trocar de roupas, trabalhar 
e seguir com ninharias
é algo que me parece atroz

como é possível que se esqueça 
das palavras nas velhas cartas
dos poemas em guardanapos
das canções que me dedicou?

não que eu não seja capaz 
de me render amor
mas era sublime 
a intensidade em seus olhos 
nem todo ouro do mundo
me traria de volta aquela sensação


se você decidisse, só um pouco,
acreditar no amor
poderia ter ficado
lembra? parava diante 
de qualquer espelho
e nos achava lindos juntos

não é o fim da vida, eu sei
só dói quando me identifico
com as heroínas dos filmes de amor
e me lembro de minha sina de preterida

mas por Deus, como você supera
o fato de ter nos transformado 
para sempre no fragmento 
de uma promessa?

você coloca os óculos escuros
evita o sol, observa os pombos cagando

na estátua da praça da estação
e não parece entender
que o amor é um punhado de renúncia
e uma meia dúzia de dias felizes no mês

 



terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

prolapso

costumo ser razoável
quando afasto da memória
esse sorriso em que você, sem querer 
faz semblante de amores passados
mas não tá dando, meu bem
meu peito tá descompassado
tá fazendo vazante
tou morrendo a míngua
e não vejo o instante
em que um beijo de língua
vai curar a torção
que o excesso de não
causou ao meu coração


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

realidade

quando deixamos de colecionar sapatos
quando dois pares são o suficiente
a gente acha que venceu o ego
que não liga mais para
essas tretas de poder
quando esvaziamos os armários
e sentimos arroubos de humildade
e de desprendimento
pensamos estar prontos
a vida chega sorrateira
e nos arranca os pés

Foto de Nuno Perestrelo

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Ando cansada dessa pornografia da dor e do ódio que vejo por aqui. Queria um poema que fosse um lugar feliz onde eu pudesse morar. Queria mais pessoas que convocassem o melhor de mim.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Abraçar a história que construí durante minha caminhada. Acolher apenas os juízos que venham embalados em amor.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

os anos noventa eram uma coisa

um mês de outono
de noventa e dois, maio
ou junho talvez
um ano de encerramentos,
ele comprou um LP do Abba
que eu amava
eu pensando que era surpresa
até descobrir que daria para a mãe
(acho que era maio)
eu ainda naquele esquema de esperar
a fase ruim passar
o ensino médio terminando
ele conversando muito
com as colegas de escola
até eu descobrir que
a magricela de cabelo pintado
que morava atrás da igreja
era a nova namorada
passando de ônibus eu a via
em sua varanda
com as amigas como a diana
e suas companheiras, de vermeer
doía tanto que eu torcia
pela chegada das novas linhas do metrô
eu não sabia do desperdício de amor
aqueles bem que podiam
ter sido anos melhores
alguém tivesse me contado
que um dia eu iria esquecer
e que de tudo isso ia ficar apenas
alguns sonhos recorrentes
uma cicatriz na testa e um filho

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

é só um exemplo

é só um exemplo
mas ela foi vista
admirando os céus
durante uma chuva de raios
era preciso dizer que
não se conquista a liberdade
contemplando o céu
uma revolução libertária
carece de gaiolas para insurgir

quem a viu no entanto
não disse nada
ficou só observando
ela, ali
descrevendo com o queixo
a trajetória dos raios
qualquer palavra parecia redundante

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

do que sobra dentro quando se esvazia

não uma verdade qualquer
mas aquela experiência melancólica
de quem renunciou às ilusões
aquele "eu sei" murmurado
quando se nota  que chegou ao fim

nesse dia todos os poemas nos acusam
são como aqueles rostos que se viram
ao entrarmos em uma sala por engano

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

verossímil

hoje terei que fingir que te amo
para escrever um poema
é que soube que botaram à venda
uma casa lá na Rua do Alto
com uma varanda colonial
e umas margaridas selvagens
para lá valeria a pena nos mudar
e criar os três filhos
que nunca teremos

domingo, 5 de fevereiro de 2017

inércia

durante cinquenta dias
cultivou dezenas de sementes de uva
desse plantio nasceram sete mudas
ele as replantou, adubou a terra, regou
e fincou estacas caiadas
intuindo bastas parreiras

até que a mariana nos contou
"aquilo não são folhas de uva
as verdadeiras apresentam
bordas serrilhadas admiráveis
foi assim com as sementes de morango
que tentei cultivar"

desde então observamos com o canto do olho
o canteiro viçoso de ervas daninhas
sem nenhuma disposição para regar
tampouco sem coragem para ceifá-las
e isso diz uma imensidão acerca de nós


sábado, 4 de fevereiro de 2017

lá no lugar do medo

difícil achar sentido em nosso tempo
a maldade do mundo
um punho em minha glote
pessoas vêm e vão como ventos

para manter o zelo com a casa
é preciso esquecer
que um dia será demolida
tal qual o são minhas tantas idealizações
dançar ainda é
minha melhor experiência com o agora

ergo um bunker com o silêncio
que eu moldo como telhas em minhas coxas
um poema me acalenta batendo a mão
levemente em minha costas
e sussurra "vai passar, vai passar"



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

nunca mais aquela falta

[ norma de souza lopes ]

quando notei que perdia minha voz não me desesperei
apenas pus em suspenso
os sonhos de ser
a cantora do século

são assustadores
os uivos do ressentimento
da perda e da raiva
mas já aprendi
a ouvir nos búzios
as  batidas do coração
sem cortar as palmas das mãos

não os que vão
mas os que ficam
é que contam as histórias
de nossas idiossincrasias
a poesia ainda é a melhor conversa
quando nossa única alternativa
é o silêncio

sábado, 28 de janeiro de 2017

agora que tudo é calma

[ norma de souza lopes ]

dar de comer à selvagem
que sacode às mãos
e se despede
do que é tóxico
ódio
desamor

agora que tudo é calma
repassar cada som
cada sorriso
calçar sapatos vermelhos
dançar
e suportar sem dor a beleza do mundo

domingo, 22 de janeiro de 2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

copo de veneno

por o ritmo das sílabas em marcha
rimar como címbalos de rocha
criar a mais bela dança semântica

(e perder toda a poesia
bebendo doses diárias de ódio)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

aceitar

um amor que não seja
uma tragédia de Shakespeare
uma amizade que sobreviva
às contradições
uma chuva que esfrie sem matar
aceitar que onde quer que eu vá
já estou onde deveria estar