quarta-feira, 30 de agosto de 2017

paixão arbitrária


trançam meus cabelos, me pintam
retiram meus anéis para brincar com
eles por cinquenta minutos e tentam
fugir da ordem das filas
intermináveis

almoço repetição mochilas escovação

se batem, se ajudam, se tocam como irmãos
e irmãs e isso é de uma beleza indizível 

já sei a resposta para a pergunta que fazia
quando enlouqueci pela primeira vez
quando me perguntava como suportavam
o trabalho os caixas de supermercado

uma porção de raiva pra nos trazer alegria

trago um poema
entalado na garganta
um poema que luta
pra ser paz
e revolução
um poema que grita
deixem em paz
o corpo das mulheres

ele olha para fora
e não quer sair
o poema entalado
na garganta quer dizer
já acabou
mas te amo
como Drão

um poema
entalado na garganta
não é uma boa companhia
para se levar a passear
por aí



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

instantâneo

quase meio século para
entender que apesar da força
o voo é mais belo que o salto
entendo seu medo
um corpo no qual tudo
nasce e tudo morre
parece mesmo assustador
sombras me alheiam
mas não me tomam
estou perdida
então sei onde estou
fez um click surdo quando
desliguei a tristeza por dentro

Against Therapy Adán Méndez

Recordo que Anna Freud contava
o estranho que era Ferenczi,
um diálogo, sobretudo,
que se fez inolvidável.
—Uma hora, não sei
me está parecendo um prazo muito forçado
estou lhes dando mais tempo
deveríamos dar-lhes todo o tempo que quisessem.
—Mas se um paciente quer toda a tarde?
E os que esperam lá fora?
Aí Ferenczi ficou pensando
um momento ficou pensando
e afinal me disse:
—Talvez devêssemos ter um único paciente.
Anna Freud seguramente não soube
(o diário se publicou 50 anos depois)
mas Ferenczi naquele dia, ou no seguinte,
fez umas anotações a respeito.
Necessito do efeito sedante do amor
pelo menos tanto como meus pacientes.
Eu também necessito ser o paciente único de alguém.
http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/chile/adan_mendez.html

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

acontecimento

congelo um evento 
em vermelho
vivo onde o amor
é uma experiência 
feliz e pergunto
gosta de maçã?
se me acha real
pinte-me de rosa 
pink em sua
lembrança, jogue
a chave fora deste
momento, certo é só
um modo de dizer
algemas e armaduras
acredito em mágica
adivinho sua risada
mudar para sempre
é só o que se pode ter

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

à praça da estação

deveria ser grande coisa dizer 
cheguei até aqui
não fosse esse preto
testemunhando o luto

é tão embaraçoso
estar sempre aprisionada
em sonhos de amor

socorro primavera
te quero inteira
em vestes sumárias
na praia da estação

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

advento

[norma de souza lopes]

pode ler as linhas 
da palma de minhas mãos?
um mapa do sítio onde
se possa existir longe dos medos
e capturas tão comuns às
pseudo histórias de amor

quem era você quando 
o homem pisava a lua?
fosse nascida estaria pronta
a admirar seu sorriso pueril
e dizer amo o que a sua trilha 
sonora me diz de você


é de um mal gosto agudo um eclipse
cuja visão não reconcilie nossa distância
principalmente agora que tomei
de suas mãos em concha, um amor
doce como fruta

Canção de amor para tempos difíceis María Elena Cruz Varela Tradução de Norma de Souza Lopes

Difícil escrever te quero com loucura.
Até a medula. Que será de minhas mãos
se lhes roubam a magia sonora do corpo?
Difícil. Muito difícil um poema de amor neste tempos.
Acontece que tu está. Feroz em tua evidência.
Acontece que estou. Contrafeita. À espreita.
E acontece que estamos.
A lei da gravidade não nos perdoa.
Difícil é dizer te quero neste tempos.
Te quero com urgência.
Quero fazer um aparte. Sem dúvidas e sem armadilhas.
Para dizer te quero. Assim. Simplesmente.
E que teu amor me salva do uivo noturno
quando a loba demente da febre me arrebata.
Não quero que me doa a falta de ternura.
Mas amor. Que difícil é escrever que te quero.
Assim. Entre tanto cinza. Tanta moléstia junta.
Como posso aspirar a transparência.
Retomar esta voz tão desgastada.
Esta costume antigo para dizer te quero.
Assim. Simplesmente. Antigamente. Digo.
Se todo é tão difícil. Se tudo dói tanto.
Se um homem. E outro homem. E logo outro. E outro.
Destroçam os espaços onde se guarda o amor.
Si não fosse difícil. Difícil e tremendo.
Se não fosse impossível esquecer essa raiva.
Meu relógio. Seu tic- tac. A rota para o cadafalso.
Minha sentença ridícula com esta corda falsa.
Seu não fosse difícil. Difícil e tremendo.
Plasmaria  este verso com sua cadência tosca.
Se fosse tão simples escrever que te amo.

sábado, 19 de agosto de 2017

agosto

de mãos dadas com o poder, o amor 
é a véspera da melancolia
talvez seja este, agosto
o seu papel, ser 
pastor de distanciamentos
artesão do vazio
para o que virá a ser

(mas está tão feio o terreiro
depois dessa poda
do cosme amarelo)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Tem nove anos. Chegou com uma meia dúzia de pedras na sala e distribuiu entre as colegas:
_ Um presente para você, você e você... Sorri feliz com seu feito.
Uma colega pega o presente, observa e lança pela janela.
Ela chora de soluçar:
_ Jogou... fora... o meu... presente...
A professora indaga:
_ Porque você jogou fora?
_ Professora, ela colocou um chicletes mastigado e duro aqui na minha mesa.
_ Era uma pedra... Um presente..
_ Porque fez isso, não se joga fora um presente. Não precisa chorar, vá lá lavar seu rosto.
E observa a menina procurar o chicletes caído do lado de fora da janela...

(e eu pensando em quanto isso se parece com fazer poesia)

Vim para perder - Dianan Moncada - Tradução Norma de Souza Lopes

Volto sobre a mesma fenda como uma máquina deteriorada.
Volto sobre o mesmo erro,
sobre a mesma caça de brancos espelhos.

Volto, mesmo sabendo que a palavra me é sensualmente inútil,
mesmo sabendo que não darei nunca com nenhum maldito prego
sabendo que nada poderei dizer
sobre os lobos afogados na carniça do meu tédio.

Vim com o poema
-cegamente-
para perder.


daqui ó http://www.lamajadesnuda.com/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1167:diana-moncada&catid=60:poetas-de-caracas&Itemid=168

domingo, 13 de agosto de 2017

do auto amor e seus sinais

há esses que nos levam
selva adentro
e há as migalhas que
deixamos ao largo
por precaução

crônica de um evento noturno

cinco minutos depois que saímos
eles entraram, roubaram e atiraram
é estranho pensar que
enquanto eu, meio alta
fotografava nós dois
pelas ruas do bairro
alguém quase foi morto
crueldade e principalmente
raiva de quem não
aceita a impotência
péssimo encontro
e a gente brincando
de novo de se amar
cabe tudo isso no mundo
não que eu não tenha raiva
é que converso com ela
entendo até aquela raiva das
manas nos saraus
ela vem desde a mil avó
escutar em silêncio
é o caminho
acolher até dissipar
a tristeza de agosto
não foi bela
uma radiografia
mostra-a tão feia
quanto o corpo
depois do amor
e das orações
vaidade demais, eles dizem
toda essa exposição
mas a luz às vezes
sai dos seus olhos
de quem vê
como na olympia de manet
eu sei, sou escrava
e cúmplice de minhas paixões
mas no meu desejo
me reinvento
não sou signo
sou acontecimento
é estranho pensar
que nós saímos
cinco minutos antes

terça-feira, 8 de agosto de 2017

ternuras inventadas

não entendi nada
daquele sonho
dos armários abertos
no consultório

"me desculpe outra vez"
você disse
e dormiu satisfeito
a noite inteira
com sua justiça
ok,  tenho todo amor que preciso
sem fazer meu mundo ruir

quero desistir
mas ajudava
se você fizesse
aquelas coisas idiotas
que todos fazem
no primeiro encontro

derreter satélites
é a metáfora mais bonita
para uma fantasia

desolação

não parece certo
tanta força
é tão pouca sorte
isso não é um poema
é uma oração

domingo, 6 de agosto de 2017

8029 dias

recusa brincar com abismos
ignora o por-do-sol 
insiste em minhas ruínas
se encanta com a teimosia de um
dos bicos de meus seios
tão simples como a água 
e a sede, seu lugar 
é dentro de mim


alegoria

demora semanas, meses até
quis um acontecimento
para eu colocar nesse poema
que funcionasse como
um enigma
da alegria do encontro
mas não me lembro
de nada singular
só da gente brigar
o tempo todo e daquele
grafitti que provavelmente
você nem vê
da sua janela

anunciação

entrando o anjo disse-me
alegra-te cheia de graça
eis que conceberá
é dará luz à poesia
(e no meu ouvido segredou
serás a invenção de si,
só de si e de mais ninguém)
então respondi
que a poesia
faça de mim a sua serva
e que eu seja
a mais bela invenção
e o anjo retirou-se

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

todo poema de amor é o último

há um momento
naqueles  sonhos
em que se pode voar
que pressentimos a fábula
e não se quer acordar
ei, eu seu que estou perdida
mas estou bem
ainda choro em posição fetal
(mas só por meia hora)
o bacana do amor
é que ele fica
depois que todos partem
todo mundo finge que é
o centro do universo
comigo não seria diferente
ser a primeira
na quadrilha de alguém
vai ter que ser suficiente