domingo, 10 de dezembro de 2017

colobri-abelha

- Era possível mamã, que nosso coração batesse mais lentamente? 
Ao que a mãe responde:
- Não seria possível pequeno. Precisamos disto, do calor, desta velocidade de voo e de todo néctar que pudermos consumir. Nisso consiste ser um zunzuncito. Mas diga-me filhinho,  porque haveríamos de existir de maneira diferente?
- Mamã, sinto saudades do escuro que era antes de eu nascer.

efeito borboleta


uma mulher atravessa a rua
não como quem perde um ônibus
ou vai separar uma briga
ela não tem uma bússola
mas está certa de que atravessa
em direção ao norte

"dezoito ou vinte anos?"
"qual a diferença de sentimento
entre quem vai viver ou morrer?"
"todos vão morrer,
mas há algo eminente
nos sentimentos de quem
vai morrer amanhã?"
enquanto a mulher atravessa a
rua se lembra de quando encontrou
a vizinha esfaqueada pelo ex-marido
na porta da cozinha
apesar do tom cianótico no rosto
por fragmentos de segundos
acreditou que a outra estivesse viva
era muito viva sua imagem
de pé diante do balcão da padaria
comprando pães e cigarros
no dia anterior
se mudaram para a pequeno barraco
em 9 de dezembro de 1999
a geladeira o fogão e os colchões
chegaram na quarta-feira mesmo
o sofá e as camas demoraram
uma semana para chegar
ela, ele e os filhos pequenos dormiam
e viam TV em colchões no chão
em 99 George Harrison foi
esfaqueado no peito em Londres
em 99 os reféns do Indiana Arlines
jogavam xadrez dentro do avião
ela não sabe ainda
mas atravessar a rua
é só o primeiro passo
de uma longa diáspora
que empreenderá
saiu de casa naquele dia
como quem ia comprar
pães ou cigarros
até perceber que não podia voltar
"eu poderia jogar xadrez em casa
por mais 18 anos" ela pensa
mas algo em sua memória, um pouco
daquele azul áspero e frio na pele da vizinha
move suas pernas para a travessia
subir uma escada ou atravessar uma ponte
são metáforas bem potentes
mas pouca gente lembra que não se pode morar numa escada ou uma ponte
uma escada ou uma ponte são
aqueles não-lugares nos quais
se tiram fotografias
quando se quer passar a ideia
de saída ou de chegada
a mulher chegou do outro lado da rua
se fotografássemos o exato momento
em que ela pisou
na guia do meio-fio perceberíamos
o modo como seus pés tocaram o chão
ou como suas mãos se apoiaram no poste
a fizeram lembrar da firmeza de outra marcha
empreendida junto à mãe e os três irmãos
quando fugiam do pai em sua infância remota
edward lorenz ou qualquer outro cientista
da teoria da complexidade poderia
chamar aquele sentimento de
sensibilidade às condições iniciais
um bater de borboletas no Brasil
provoca um tsunami no Japão
a teoria do caos oferece respostas interessantes para aquilo que semestres
inteiros de estatísticas aplicadas às
ciências humanas não são
capazes de responder

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

uma ilha é um lugar completo

um dia triste
fundo branco
colorido abandonado
era bom quando 
ainda acreditava
que havia onde chegar

caminho, e faz barulho
consegue ouvir o ruído 
dos cacos aqui dentro?

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

moto perpétuo

nem bem amanhece
e o poeta rastreia
anseia o mistério do ouro
estuda alquimia
raiva, tristeza e fome
mastiga o pranto entre
os nacos de comida
cata a poesia
ordinária e invisível
entre as alimárias do dia

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

roendo os dentes

pense uma escada 
a subida
a descida

pense a travessia
de uma ponte

esquece o vazio
do entre

mora-se debaixo de uma ponte
encima não
não há morada em uma escada

algo trinca
quando se entende
que vai ser impossível
continuar amando
frente a frente



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

a assustadora palidez das paredes

a boca aberta do cárcere
a sombra faminta
do tilintar das chaves

forte e estável
é a nossa falta
de coragem


sábado, 11 de novembro de 2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

náufraga

uma sede me consome
o mar do seu nome
lanço ao oceano
numa garrafa
dada a ilha
que me cerca

mas o frasco
não se afasta
insiste em oscilar
em minha orla

terça-feira, 7 de novembro de 2017

regalos

vai doer quando eu cantar
estas canções ordinárias
tiver receio de me despir
ou tomar um café forte

a memória é um filtro duvidoso
(escrevo para me lembrar 
o porque de fazer essas coisas
tão longe de você)

domingo, 29 de outubro de 2017

eles não estão prontos

criar filhas com braços fortes
para carregar bandeiras
ventres livres
para parir outro mundo
e um coração preparado
para a solidão