terça-feira, 20 de junho de 2017

Pera - Alejandro Aura - Tadução de Norma de Souza Lopes

Estava eu descascando uma pera distraído
contente de servir-me o desjejum,
quando de repente notei o pouco pudor
com que se deixava eliminar a vestimenta
e como soltou umidades e como me escorrias pelos dedos
um jogo lúbrico que me pedia certo pudor que nesta matéria eu havia perdido
e não por isso eu a sentia menos densa e doce
acomodar-se à temperatura de minhas mãos;
a nomeei suavemente no reino das frutas,
a chupei, a mordi, a fiz minha
e escrevo seu nome para que não se apague a memória dos
séculos: pera.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Não Confie - Abel Feu - Tradução de Norma de Souza Lopes

      Te queixas às vezes —e te pões
bastante irritada, e por isso
aliás, não te ofendas— porque dizes
que meus versos te querem mais que eu.
     Bom, bom. Poderia replicar-te, mas, oh!,
te conheço de sobra,  não me ouvirias,
assim, tudo bem, valeu, O.K., d'accord.
E não é por defender-me, mas, ei,
ao menos, digo eu, se estás de acordo,
poderíamos discutir isso? O que você acha?
     Porque, vamos, Que fazem eles por ti?,
Então, o que fazem? Te acompanham? Vão
contigo ao cinema, para um passeio? De bicicleta?
Te escutam quando está de blá blá blá?
Te chamam todo dia —repitopitopito:
todo dia (que pequena conta)—,
por telefone? Einh?
     Tenha cuidado, são ilusão. Não confies
em nem um verso. Mira que eles
—depois não venha dizer que não avisei—,
eles te querem,  apenas, de palavra.
 
http://andresvara.blogspot.com.br/search/label/Abel%20Feu

domingo, 18 de junho de 2017

O pacto de Alfonso Brezmes - Tradução de Norma de Souza Lopes

Se me acende, não aguardes
de mim conversa fiada,
os desgastados ritos do amor,
as consabidas normas,
os regulamentos mais toscos
que matematicamente predizem 
como tudo se tece e destece.
Se me prendes,
não me venha com lenha para um dia
que acaso nunca haverá de chegar,
não me venha brincar o jogo proibido,
se ignora a aritmética e o cálculo.
Não te cubras, não conserves:
organize tua vida para o fogo.
Este é o pacto: se me incendeias,
arde comigo.


Daqui ó http://andresvara.blogspot.com.br/2016/01/alfonso-brezmes.html

sábado, 17 de junho de 2017

poiesis

quantos são os poeta hoje?
me perguntam
e sou obrigada a dizer: menos do que precisamos
é mortificante que tão poucos sejam poetas

mesmo estes mitos desamparados 
essas nuvens errantes 
beija-flores sedutores
mesmo esses
nos trazem algum alento

é tão triste
a falta de poesia em um homem

sexta-feira, 16 de junho de 2017

adicta


escrevo versos
como quem passa o chapéu
a espera de moedas, o amor
a poesia me consome
como um vício
ou seria a paixão?
lembro-me de tuas mãos

tão bonitas
mas inúteis para mim


(ninguém viu
mas no  verso em branco
eu disse seu nome)


August Rodin (1840-1917)

 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

fôlego

repousa descuidado
sobre esse nome: meia-noite
ignora a potência de meu fôlego

se abre só por um instante a boca
assopro entre seus dentes
um sol de amarelo ardente

sou a mulher em chamas

Imagem de Antonio Lee

sábado, 10 de junho de 2017

o diminutivo do seu nome

ontem observei que o diminutivo do seu nome
significa espreita, alvo, desejo
e é divertido como essas palavras dizem de você
porque, como a serpente do poema do igor
estankona, me espreita de maneira que não
se possa preparar a defesa, ou seja
até que eu esteja submissa

o fato de eu ir e voltar
não tem nada a ver com jogo
mas sim com um esforço de desfrutar
da fantasia sem enlouquecer
e só quem me conhece pode
saber como é grande coisa
não enlouquecer

escolhi você como alvo
por causa dessa sombra intangível
que vejo em seus olhos e a impossibilidade
me faz cada vez mais achar que estou certa
porque com você tudo parece dar errado
o que, em minha lógica interna é
uma bela maneira de acertar

que o diminutivo de seu nome também
signifique desejo não é nada estranho
pois você carrega essa voracidade
indisfarçável dos homens que não se
constrangem em desejar o sexo em
sua forma mais primitiva e ávida

os ponteiros da minha bússola
feminista se arrepiam porque
não me parece certo que
uma mulher esteja assim
tão entregue às lascívias masculinas
mas reconheço que seu desejo
desperta minha própria sofreguidão

escolhi não perder muito tempo
com seus silêncios porque
tenho meu próprio tempo perdido
para recuperar e a felicidade
não é uma coisa que se
construa da noite para o dia

não estou dizendo com isso
que renuncio a essa invenção de
você que criei, não é isso
respeito essa imagem como a um poema
e vou cultivá-la enquanto ela
for capaz de me acrescentar vida

na savana que vivemos sou a gazela
e também o tigre e sinto de longe o cheiro
do seu medo, menino índigo
entendo porque não queira lutar
fazer parte dessa geração tão
promissora que não chegou a
acontecer planta em nós fastio e tédio
com as ciladas do sucesso e da adaptação

quem disse que não se ganha nada com a paixão?
você já me deu quase uma dúzia de poemas

quarta-feira, 7 de junho de 2017

uma mulher deve seguir


Eu vi uma mulher e ela moldava um pote em volta de si
Ela guardava a si, suas melancolias, sussurros e medos em um pote

Mas um dia as guerras se instalam e chega a hora de partir
e uma mulher precisa saber viajar discretamente
levar a penas o necessário
sonhos, um caderno, um vestido vermelho

Uma mulher não deve se compadecer de seus sapatos velhos
ainda que implorem: "fica"
que supliquem para que ela continue a dançar
uma mulher deve seguir caminhando sem esquecer que
sem ela eles são apenas um corpo vazio num salão

Uma mulher precisa cuidar para não deixar
os olhos perdidos nalguma gaveta

Quando chega a hora, uma mulher precisa marchar
no caminho, animais perigosos, rios turbulentos
há que evitar novas jaulas, violências
mas vale seguir o curso do rio
sempre é possível saber para onde vai um rio

RUDE Manuel Arana Tradução de Norma de Souza Lopes

Por muito que me esforce
(talvez, por isso eu nem tente)
esse nunca será um bom poemário.

De qualquer maneira, serei sincero contigo.
Quando alguém ensina seus poemas
sempre pretende algo, sempre:
Aprovacão, se estás seguro de que são bons.
Ou críticas construtivas para poder refazê-los
se não as tem todas contigo.
Embora existam duas reações que realmente buscamos.
Uma é conseguir que alguém se sinta contemplado
nos poemas e diga “isso era o que eu sentia”.
Porem a mais esperada
(é que, por desgraça, menos se escuta)
é que o destinatário real dos versos
responda corretamente a todas as tuas perguntas.
Em meu caso seria algo assim como
“deixa já de poeminhas
e vem aqui, porra”.
Daqui ó https://www.google.com.br/amp/s/hectorcastilla.wordpress.com/2012/09/28/manuel-arana/amp/

domingo, 4 de junho de 2017

ontem

tantos versos apagados
até chegar a um poema
me amarrasse ao mastro
e plantasse cera 
em meus ouvidos

nada disso funcionou
a julgar pelo mergulho 
em seus olhos